Receava elle, pouco habituado a ser feliz, que a doença não fosse em progresso, e por isso queria receber noticias amiudadas, se fosse possivel a toda a hora. A doente peorava a olhos vistos, e dizia o medico que a pneumonia degenerava em typho, sendo possivel que houvesse meningite á mistura. Elle tinha uma enorme confiança no doutor, que já lhe assistira á morte de toda a familia, e a quem elle conservára o partido, não para o tratar a elle, á mulher ou ao filho, mas tão sómente para a sogra. Rematados os seus negocios, metteu-se no primeiro comboio, com o coração aos baques, como quem aguarda uma sentença. Descia o medico a escada, quando elle a subia esbodegado, e com bagas de suor perlando-lhe a vasta fronte.
—... Vi-a morta, meu caro amigo. Lancei mão de todos os soccorros, e posso dar-lhe a boa nova de que passou todo o perigo. A crise fez-se hoje mesmo, e agora é só questão de tempo.
Subiu o resto das escadas a cambalear, como um ebrio, e atirando-se para cima do sophá que havia na sala de entrada, n'um abandono de quem se vê irremediavelmente ludibriado:
—E eu que tinha tanta confiança n'esta besta do doutor!...{15}
A policia, ajudada pela guarda municipal, fartou-se de espancar os cidadãos pacificos, realizando muitas prisões.
(Dos jornaes).
A estrada, larga e poeirenta, passava junto á porta sempre aberta do jardim, marginada de choupos e eucalyptos.
Toda a gente das aldeias proximas por alli fazia caminho, no giro da vida ordinaria, homens, mulheres e creanças, alguns descalços, e outros rotos, a maior parte sem pau nem pedra, gente pacifica como bois de trabalho, muito pacifica e muito humilde.
Aos domingos, nos dias santos, quando havia festa n'alguma egreja do sitio, por alli passavam ranchos de moças garridas, em cabello, cantando e rindo, cada qual pelo braço do seu namorado, parando aqui e além, aos abraços e beijos, como numa kermesse flamenga.{16}
Pois era n'esses dias que o Pandorga, locatario do jardim, quasi escondido por detraz de uma parede de buxo, atirava os cães para a estrada, açulando-os ás canelas de quem passava. Csi, csi, e arregalava o olho, guardado no seu esconderijo, rindo muito, sem fazer barulho, quando os cães rasgavam as saias das raparigas ou as calças dos homens, e muito mais quando lhe appareciam de rojo, após a lucta, levando ainda nos dentes boccados de carne em sangue.