D'ahi por um quarto d'hora, pouco mais ou menos, sentado á secretaria, na descuidosa negligencia d'um nababo feliz, a mordicar um charuto fortemente aromatico, estendeu o braço e premiu o botão electrico.
—Não sei se é a mim que...
—É com o que está de serviço ao bispote.
—Então sou eu.
—Despeja aquella caixa.{119}
A alma das creanças que morrem sem baptismo não entra no céo.
(Crendices populares).
No dia seguinte era o baptizado.
Havia mais d'uma hora que estava a devoral-o com os olhos, debruçada sobre a canastrinha de verga em que elle dormia, envolto em rendas, muito harmonioso na minusculidade das suas formas—como se fosse uma esculpturazinha de Donatello, copiada de frei Angelico, em um vago presentimento da Renascença.
Ella propria o enfaixaria, subtilizando os dedos leves, ao calçar-lhe os sapatinhos de seda, não fosse magoar-lhe as carninhas tenras, d'uma rijeza de fructa verde e sadia. Não iria com elle á Egreja, fraca ainda como se sentia; mas já recommendára á parteira que o não entregasse a ninguem, nem mesmo ao padre, receosa de que mãos pesadas tomassem aquelle fardozinho ligeiro, que era a melhor fibra do seu coração, animada do{120} mais puro effluvio da sua alma. Sem saber como, entrou a philosophar sobre o baptizado, o santo sacramento do baptismo como ensinam os livros sagrados.