Por certo não se morre de felicidade, visto que elle não tinha morrido no dia em que a recebera sua esposa legitima á face da santa madre egreja, e tambem não se morre de dôr, visto elle não ter morrido no dia em que lhe cerrou os olhos, colando-lhe os olhos ás palpebras, n'um derradeiro beijo.

Era dia de finados, e como não quizesse dar em espectaculo a sua dôr, o cemiterio cheio de visitantes, deixou que toda a gente saisse, já quasi ao pôr do sol, para elle então cumprir a dolorosa missão que se impuzera de ir todos os dias retalhar o coração, ajoelhado sobre a pedra que cobria metade da sua alma, que era toda a sua felicidade.

Ajoelhou, chorou, rezou e quando já tinha os olhos secos de muito haver chorado, e já não tinha o coração dorido de tanto que a dôr o tinha{127} feito soffrer, espalhando pela sepultura o seu braçado de flores, as mãos postas, o chapeu debaixo do braço, os olhos erguidos ao alto, anniquilado como se caira sobre elle a maldição de Deus, dirigiu-se para a porta do cemiterio.

A poucos passos andados, cruza com elle um rapaz alto, vestido de negro, com um grande ramo de flores na mão.

Parou, e sem quasi se aperceber da sua curiosidade, poz-se a seguil-o com os olhos. O outro foi seguindo, o andar estugado, caminhando a direito sem hesitar. Como elle fizera havia instantes, sobre a mesma sepultura, ajoelhou, chorou, rezou e quando já não tinha mais lagrimas para chorar, automaticamente, como se na pedra da sepultura tivesse deixado colada a alma, dirigiu-se para a porta do cemiterio.

—Devia tel-a amado muito, para soffrer assim!

—Se amei! Daria a vida para a resuscitar, ou para ir apodrecer ao lado d'ella, debaixo da mesma pedra.

—Era então sua mulher!..

—Era simplesmente minha amante, porque tivera a infelicidade de casar antes de nos conhecermos.{128}

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