Havia tres mezes que a mulher morrera, que nem um só dia passava sem que elle fosse rezar sobre a sua sepultura, offertando-lhe flôres orvalhadas de lagrimas.{129}
Não ha bella sem senão.
Ás vezes, quando a beijava, sentia-lhe as faces quentes dos beijos que outro lhe dera. Parecia-lhe então absurdo, quasi inverosimil que a Natureza fizesse tão linda uma creatura tão perfida.—Era como se alguem mettesse lama das ruas n'uma urna de alabastro.
Tão linda!
Punha-se então a fixal-a muito, muito—como se, debruçado sobre um abysmo, quizesse sondar um mysterio. Pareciam feitos de treva os seus olhos luminosos! Brincava um sorriso leve nos seus labios sensuaes, em que havia o perfume intenso das violetas e o sabor casto das rosas.
Tão linda!
Não se acredita que haja vulcões na lua, serena e pallida, ás vezes escondendo-se por traz das nuvens, como se fosse uma mulher nua que percebesse no espaço olhos brejeiros a fital-a.
Tão linda!{130}
Manchava-lhe o pescoço um fio d'ouro muito delgado suspendendo um Christo de marfim perfeito como se o fizera Donatello, vago e poetico como se o desenhára Frei Angelico.