Quando saiu, a correr como um ladrão perseguido, ou como um doido que se escapa, nem pensou no escandalo que causaria a sua presença alli{134} já noite velha, se o jardineiro o visse. E era tão grande a sua perturbação, quasi a raiar pela loucura, que parou junto á porta, deante d'um molho de cactos, a insultal-os, parecendo-lhe que eram creaturas maldosas, chasqueando do seu ludibrio, em grandes risadas vermelhas.

Coitadinho!{135}


Os milagres não se discutem—ou se negam ou se acceitam.

Chegou á porta da Egreja no momento preciso em que o sacristão, com o chapeo debaixo do braço, se preparava para a fechar.

Levava na mão uma almotolia d'azeite, obra d'uma canada, e explicou que fizera aquella promessa á senhora Santa Luzia, da sua particular devoção, no anno passado, quando estivera mal dos olhos. Deixára um homem fazendo a sua obrigação, pagando-lhe meio dia, e, como a jornada era comprida, não pudera chegar mais cedo. Seria um grande transtorno ter de voltar, e só muito tarde poderia fazel-o, porque o patrão já lhe dissera que iria para as herdades do Sado, e era natural que por lá se conservasse até ao fim da temporada. De resto, poucos minutos lhe chegavam para cumprir a sua promessa, e como ha viver e morrer, não queria ser chamado á presença do Senhor sem se pôr em contas direitas com os{136} santinhos. Ainda no domingo passado tinha ido levar um alqueire de trigo a Santo Antonio; por causa de um atalho de cabras que se tinha sumido, e que elle receava que fosse parar á bocca dos lobos. Felizmente que nem só uma cabeça se perdera, e isso fôra sem duvida um milagre do santo, que os lobos, na charneca onde andam, são tantos como as mães.

Tanta piedade commoveu o sacristão, aliás d'uma crença muito precaria, como quasi toda a gente que vive muito no gremio da Egreja. Dentro em nada era sol posto, e elle tinha de ir á villa comprar mantimentos e dar informações da mulher, havia duas semanas de cama. Disse-lhe que fosse rezar as suas orações no altar da Santa, e que despejasse a almotolia no potezinho de lata, com tampa de madeira, que estava na sacristia, logo á entrada, lado direito, e que servia só para recolher o azeite das promessas, geralmente improprio para as comidas. Que em saindo fechasse bem a porta, e entregasse a chave á rapariguinha que lá tinha em casa, para acompanhar a doente, quando elle precisava sair.

No dia seguinte, pela manhã, quando foi preparar a egreja para a missa do domingo, notou que a Senhora Santa Luzia não tinha o cordão e os brincos que lhe tinha offerecido um brasileiro, tambem doente dos olhos—o cordão por ella o ter livrado do mal, e os brincos por o ter livrado dos especialistas.{137}

—Foi aquelle grandissimo ladrão!

Posta a policia em campo, d'ahi a pouco estava preso o indigitado gatuno, que o sacristão reconheceu mal o viu.