Não negou estar na posse dos objectos que se dizia terem sido roubados, mas jurou pela salvação da sua alma que tal roubo não commettêra. E que só falaria na presença do sr. prior, que era um homem de muita santidade, e d'uma grande sabedoria. Sem saber do que se tratava, acompanhado do official de diligencias, foi o prior a casa do juiz. Então o homemzinho explicou:—A Senhora, mal eu acabei as minhas rezas, entrou a olhar-me com muita compaixão. Contei-lhe todas as miserias da minha vida, e disse-lhe como aquelle azeite que alli levava para a sua lampada, fôra tirado á bocca dos meus filhos. Quando acabei, subi os tres degraus do altar para lhe beijar a barra do vestido. Então a Senhora, tirando o cordão que tinha ao pescoço, e os brincos que tinha ás orelhas, entregou-m'os com as suas bemditas mãos, dizendo que a ella não lhe faziam falta aquellas coisas, e que eu podia, com o dinheiro que ellas me rendessem, comprar o pão e o fato para os meus filhos. Observei-lhe que poderiam tomar-me por ladrão, vendo-me na posse de taes objectos, e isso seria a minha desgraça e a minha vergonha. Vae então a Senhora respondeu-me:

—Se duvidarem da tua innocencia, invoca a autoridade do prior. Elle é um crente sincero, e{138} quando toda a gente negasse o milagre, elle o affirmaria como possivel.

Na verdade o prior affirmou a possibilidade do milagre, e como não fosse possivel demonstrar que elle não se realizára, foi mandado o homem em paz, com os brincos e o cordão.

Dizia então o sacrista, vendo partir o penitente:

—Grandissimo ladrão!

E olhando compassivamente o prior, n'um murmurio, por entre os dentes:

—Reverendissimo burro!{139}


Saudade! gôsto amargo de infelizes...

(Garrett).

—Fizeste bem em vir...