Cançou de dizer estas palavras, e espalmando a mão no peito, ainda não havia muito opulento e agora mirrado, absorveu o ar com muita força, a bocca largamente aberta, como se lhe parára o coração no supremo esforço de fazer girar mais uma onda, talvez a ultima, de sangue arterializado.
—Se soubesses como eu soffro... Brancos e delgados, muito delgados e muito brancos, os seus labios eram duas folhas sêccas, muito ricas de nervuras, frias como a neve dos polos. Eram botões de fogo, n'outro tempo, os seus beijos, que só por milagre não queimavam.
—Havias de querer-me muito, se soubesses como eu soffro...
Via-se bem que soffria immenso, a febre a queimar-lhe os pulmões, um suor frio e viscoso a babar-lhe a pelle, e um torniquete de ferro a apertar-lhe{140} o tronco, inexoravelmente, como n'um carcere da Inquisição.
—Havias de querer-me muito se soubesses como eu soffro; mas, havias de querer-me ainda mais, se soubesses como eu te amo...
Na magreza do seu rosto, d'uma pallidez cadaverica, os seus grandes olhos negros, muito encovados, guardavam tudo o que lhe restava de vida, um sopro apenas de vida, que era um bafejo da morte. Parecia-me ás vezes, quando se fechavam, que não tornariam a abrir-se, e punha-me então a espreitar, na translucidez das suas palpebras, o momento preciso em que se apagassem.
—Custa tanto morrer, sabes?...
Sentou-se no leito, a muito custo, e levando as mãos á cabeça, sem dizer nada, poz-se a desmanchar o cabello. Um ou outro fio de prata, muito raro, manchava as suas tranças d'ebano, que lhe desciam quasi aos calcanhares quando as deixava cahir pelas costas.
—Vê como se envelhece depressa...
Fez dois mólhos do cabello, e tomando um em cada mão, emmoldurou com elles o rosto, muito magro, d'uma pallidez cadaverica.