—Lembras-te?...
Pelos seus labios brancos e delgados, muito delgados e muito brancos, perpassou um sorriso leve de creança adormecida, e nos seus olhos negros, muito encovados, brilhou mais intensa aquella lucilação, que era tudo o que lhe restava de vida—um{141} sopro apenas de vida, que era um bafejo da morte...
—Doidos que nós eramos!..
Revivi n'um minuto todo o poema do nosso amor, as loucuras d'um amor prohibido, a que não tinha faltado a dôr cruciante das paixões extremas, para dar ao goso uma intensidade quasi infinita. Instinctivamente, como n'outro tempo, collei os meus labios aos seus, e nem percebi que estavam gelados, folhas sêccas muito ricas de nervuras, frias como a neve dos polos.
Durou o sonho toda a eternidade d'um segundo, talvez menos ainda. Mal acordei, attentando na magreza do seu rosto, d'uma pallidez cadaverica; vendo fechados os seus grandes olhos negros, já sem brilho na translucidez das palpebras enrugadas, tive a impressão de me encontrar dentro d'um jazigo, para violar uma morta.