O DINHEIRO!

Vós não sabeis o que são essas oito letras, que só ellas valem as vinte e cinco do alphabeto! Vós não sabeis que eu conheço quatro, dez, trinta alarves d'uma estupidez fabulosa que escondem n'uma luva branca a mão, que deveria aguçar brochas, e palmilhar sapatos; que encostam aos coxins das carruagens os lombos musculosos que a natureza affeiçoára para as asperezas do costal; que mascaram a hediondez do vicio ignaro, o peor de todos, com o riso alvarmente cynico de todos os homens endinheirados, que é um riso particular.

Esses taes são tudo isso e mais alguma cousa; e eu sou o primeiro a sorrir-lhes urbanamente, com meiguice, com mimo até, folgo que me apertem a mão, que me chamem amigo, embora depois se riam de mim, folgo e ennobreço-me d'essa esmola de consideração, porque, se, em minha consciencia, reconheço que são elles os devassos, os torpes, os ignorantes, os incorrigiveis, a minha illustrada cabeça diz-me que eu ámanhã serei apedrejado, na praça publica, se esses taes passarem por mim sem me cortejarem, e retirarem a sua mão da minha.

O DINHEIRO, amigos! Eu nunca me cansarei de vos lembrar esta palavra, tres syllabas distinctas que fazem o unico deus verdadeiro d'este paganismo ignominioso em que medram os vicios da sociedade. Tres syllabas! trindade veneranda que representa o mytho de todas as religiões, em cada uma das quaes o profundissimo Dupuis achou uma trindade, e não descobriu esta, que eu tenho a honra de evangelisar-vos.

O DINHEIRO, emfim, foi o dinheiro, representado em Antonio José da Silva que perturbou a tranquillidade descuidosa de Maria Elisa, desde o momento fatal que a serpente, na feia figura do negociante, veio tentar a Eva da viella do Laranjal.

[CAPITULO XIV]

A pobre orphã do Recolhimento, antes de conhecer Rosa Guilhermina, enraivecia-se de não ser pensionista para compartir das regalias das ricas, que tinham o direito de responder com altivez ás reflexões das mestras, e ás rabugices da velha regente.

Reprimida pela necessidade de obedecer, phantasiava extravagantes futuros d'onde a felicidade poderia vir resgatal-a á humilhante condição de orphã, dependente da caridade publica. Moça ainda de treze annos, lembrava-se de muitos casamentos ricos com meninas pobres d'aquella casa, e botava sortes e adivinhas, que todas lhe annunciavam o suspirado casamento. Uma velha, que sabia lançar as cartas, e com a qual havia muita fé ao recolhimento, tres vezes lhe vaticinou um vantajoso casamento.

Relacionada com Rosa Guilhermina, a ambiciosa orphã esqueceu-se um pouco das suas queridas esperanças, porque, desde o momento em que ganhou a intimidade da sua amiga, dispensou a ração da casa, e viveu, independente da misericordia, como irmã com a pensionista.

Se algumas vezes contou á companheira os seus passados sonhos de casamento, Rosa ouviu-lh'os rindo, e pediu-lhe que nunca se lembrasse de tal emquanto ella fosse viva, e tivesse um bocado de pão que repartir com ella.