As perguntas de Rosa mortificavam-na.

A ciumosa amiga custava-lhe a crêr similhante extravagancia; mas a importancia grave que Maria Elisa estava dando ás perguntas zombeteiras, que lhe eram feitas, aggravou a desconfiança de sua amiga.

Por esquivar-se ás impertinentes instancias da arrufada Rosa, a noiva, em perspectiva, refugiou-se nas chufas ao promettido esposo, e conseguiu dissuadir a amiga, que foi tão facil em descrêr como tinha sido em irritar-se por um ciume extravagante.

Quando emprégo a palavra «ciume» não se persuadam que a filha do defuncto arcediago era rival d'Elisa. Justiça lhe seja feita: D. Rosa era rival do senhor Antonio. Como estas cousas são, não me importa a mim sabel-o. Ha no coração de duas mulheres muito amigas puerilidades assim, segundo me consta.

Maria Elisa pensou na aventura toda a noite.

Para neutralisar a cubiça do luxo, e da independencia, a ambiciosa pequena afigurava-se ligada ao senhor Antonio, carnal e positivamente como Deus o atirára a este mundo. Punha de parte o dinheiro, afastava o crepe dourado, para vêr o cadaver em todo o horror das ulceras; mas o demonio tentador não lhe pintava uma cousa sem lhe pintar a outra. Pelo habito de imaginal-o familiarisou-se com elle, e já lhe não parecia tão repulsivo. E, se declinava os lindos olhos do homem para a opulencia embrionaria no ouro d'elle, a philosophica menina via cousas lindissimas, e deslumbrava o coração esquivo com as liberalidades que a cabeça lhe promettia.

E, no mais caloroso do seu delirio, via um marido velho, e uma riqueza pósthuma a gosar, e um coração, cheio de vida, a offerecer.

Foi esta a final conclusão dos seus raciocinios, que ella não deixou escriptos em compendio para uso dos collegios de meninas; mas que, depois d'ella, temos visto que foram adoptados, e que fazem hoje as delicias das educandas. Os bons príncipios teem isso comsigo.

O dia seguinte correu sem novidade.

O outro foi um dia triste para ambas as meninas.