Entretanto, o senhor Antonio ficou sósinho passeando, e traduzindo para vulgar a carta de Maria Elisa. O seu espirito, posto que d'uma parcimonia admiravel no entendimento das cousas, custava-lhe a combinar a cega paixão de Elisa com as calculadas condições que lhe eram estipuladas em contracto de casamento. Todavia o negociante combinava a carta com o que ella pessoalmente lhe fizera sentir acerca de carruagens e assembleias, e deduzia de tudo que a rapariga queria figurar.
O senhor Antonio era rico, muito rico, mas avarento não. Nunca lhe occorrera a ideia de gastar dinheiro em competencia com alguns seus collegas que figuravam na roda dos fidalgos. Se desejasse deslumbral-os, não olharia a despezas. Mas o coração não lhe pedia essas cousas, e muito menos a carruagem, cujo balanço (dizia elle) não podia dar grande saude aos bofes d'um homem gordo. O orgão que o senhor Antonio respeitava mais na sua economia eram os bofes, de que se queixava pondo a mão no estomago. Naturalmente suppunha que tinha o figado no peito. Era um erro de anatomia desculpavel. Eu proprio, que já tive a honra de vos dizer que sei tudo e mais alguma cousa, não tenho absoluta certeza da collocação do figado, supposto que fui em anatomia estudante profundo, a ponto de querer provar que o duodeno (tripa de doze pollegadas) tinha, pelo menos, trinta e duas braças. E ainda hoje estou n'isto, diga lá o que disser Bichat, e Soares Franco. Em consequencia do que, tinha muita razão o senhor Antonio em recear que o balanço da carruagem lhe prejudicasse os bofes situados no estomago. Mas a senhora D. Maria Elisa de Sarmento Athaide lêra nos livros que a carruagem era hygienica, e o senhor Antonio renunciára, como vimos, o pensamento do carroção.
O jantar do senhor Antonio, n'este dia, foi rapido e pequeno, porque ao coração refluira-lhe quasi toda a sensibilidade do estomago. O senhor Antonio limitou-se a comer obra de arratel e meio de cozido da perna, uma travessa de arroz com rodellas de linguiça, uma concava pelangana de carneiro ensopado com batatas, uma tigela de chorudo caldo com sôpas que se levantavam entumecidas quatro pollegadas acima do nivel da tigela, um quarto de ceira de figos de comadre, alguns copos de vinho á proporção, e mais nada. A senhora Angelica, assustada do fastio de seu irmão, pouco mais comeu. O amor espiritualisára a organisação do nosso amigo o senhor Antonio José. Mais tres dias d'esta quasi abstinencia de anachoreta, e o sensivel negociante, um pouco pallido, e outro pouco meditabundo, poderia sem favor, ser tido e havido como a preexistencia d'estes rapazes, que nós conhecemos, e lamentamos na sua desesperação de amantes não comprehendidos na face da terra!
—Ai! quem me dera poder-vos dizer que o senhor Antonio, á hora melancólica do crepusculo, fixava o ôlho lagrimoso na amplidão dos céos, espreitando o fulgor da estrellinha que o enamorava de lá!
Eu daria de graça este meu romance, se podésse, em estylo scintillante umas vezes, e outras morbido, afiançar-vos que o senhor Antonio José da Silva fôra poisar a sua redonda pessoa na fraga de-á-beira-mar, e ahi com os olhos no horisonte, e os bofes arquejantes, perguntára á gaivota gemebunda o segredo dos seus gemidos!
Não é possivel, leitores. O senhor Antonio o mais que pôde fazer, no auge da paixão, foi comer assim. Não exijam mais d'aquelle homem, porque d'ahi ao suicidio vai só um passo.
Antonio José da Silva, meu sympathico heroe, tu passaste sobre a terra, e a tua geração não te comprehendeu!
Tu nasceste para estes nossos dias de angustiosa provação, de sentimento fino, de doloroso trespasse d'uma civilisação material para o reinado do espirito.
Se vivesses hoje, serias ordeiro, e visconde; terias ido ás camaras fallar na cultura da cebola-albarrã, e na estrada concelheira de Guinfões e Terras de Bouro; comerias biscoutos na assembleia portuense, e pedirias a palavra na associação commercial, para dizeres que eras um honrado negociante. E não ficaria aqui a tua missão grandiosa. Se morresse algum homem, rei do talento, e creador d'uma litteratura, serias tu o encarregado de dar a tua ideia para um monumento que perpetuasse a gloria d'essa illustração![3]
Antonio José, vieste cedo de mais! Eu lembro-me de ti com saudades (e mais não tive a honra de conhecer-te) todas as vezes que vejo a tua alma cavalgando o nariz dos meus contemporaneos!