—Com effeito!—tornou a senhora Angelica—eu aposto se um doutor a fazia melhor! A pequena parece que veio ensinada da barriga da mãe... Cousa assim não consta!... Nunca vi nada mais bonito! Então isso que quer dizer?

—Pois tu não entendeste?

—Assim me Deus salve que não.

—Isto quer dizer, sim... quer dizer que... é verdade, isto quer dizer, que me tem uma grande affeição da sua alma, e que está prompta a ser minha esposa...

—Coitadinha!... Isso já eu sabia... eu não t'o disse? Ora vê lá como as cartas fallam verdade! Bem dizia a Escolastica de Miragaya que a igreja te sahia brevemente... E não diz mais nada a minha cunhadinha?

—Diz que quer muito vestido, e muita... sim, diz que quer muita grandeza para metter figas nos olhos...

—Á Rosa? bem haja ella! Eu cá tambem fazia o mesmo!... Pois olha, Antonio, por ser cousa tua hei de dar-lhe o meu vestido de vareja branca com lentejoulas para o casamento, e as plumas que minha madrinha me deu, que lhe hão de ficar ás mil maravilhas. O vestido não tem mais que pôr-lhe meias mangas, e subir a cintura para cima, que no mais está na moda, custou-me a quatro mil reis a vara... daquella fazenda ha mais de trinta annos que cá não vem tão boa... E que mais diz a carta? não me manda visitas?

—Não... esqueceu-se...

—Pois, se lhe escreveres, diz-lhe da minha parte que muito estimo que seja minha cunhada, e que havemos de ir ambas visitar o Senhor, e resar a novena do menino Jesus dos attribulados, e muitas devoções. Diz-lhe mais que faça por ter saude, e que peça a nossa Senhora que lhe dê muita juizo e graça para servir a Deus... Ouviste?

—Ouvi, sim, vai pôr o jantar na mesa.