—Não? antes assim. Isto de ser poeta não é lá grande cousa. Pelos modos, o miôlo dos taes patavinas não regula bem... Eu sempre tive cá minha birra com homens que fazem d'isso. Ha de haver nove annos que fui a Lisboa, e vi lá um poeta, chamado... assim a modo de... era um nome estrangeirado...
—Bocage?
—Tal e qual; era o tal Bocage; estava no Rocio, á porta d'um botequineiro, e eu passava, e disse-me um meu amigo: queres vêr o... o... como era?
—Bocage.
—O Bocage... agora não me ha de esquecer... e vai elle olha para mim, muito sério, e bota-me um soneto que não sei que diabo dizia, que toda a gente se riu... Acho que o tal Borrage...
—Bocage.
—Valha a breca o tal nome, que tem que se lhe diga! Acho que elle era tôlo, e os outros não tem mais juizo que elle... Pois muito folgo saber que a minha esposa não é poeta... Ora diz-me: tu sabes alguma cousa cá d'estas cousas do ar?
O senhor Antonio fez, sobre a cabeça, um gesto com as mãos, que poderia significar uma pergunta de honestidade equivoca.
—Sim... perguntava eu se sabias alguma cousa dos planetas...