—Conhece aquella avantesma que me parece mesmo o peccado?

—Conheço... ora se conheço!... Aquelle é o sobrinho do senhor Antonio da rua das Flores, que me tem dado muito pãosinho. Quando eu ia d'antes levar-lhe os novellos do algodão, aquelle menino era caixeirinho na casa; mas pelos modos elle agora estuda para doutor.

—Sim? pois olhe que d'aquelle magricellas não póde sahir grande doutor! Acho que um homem assim não tem boas as memorias, nem sustancias para saber lá aquellas cousas da justiça... Elle lá entrou... Quer vmc.e vêr que a delambida da rapariga anda de namoro com elle!...

—Agora!... Se fosse isso, elle não entrava assim ao pino do meio dia... acho eu!

—Boa vai ella!... Pois vmc.e pensa que as raparigas d'agora são como as do nosso tempo? Diz o fr. Manoel do Sancto Lenho, dos carmelitas, que já não ha vergonha nem temor das penas do inferno!... E quer que lhe diga, tia Joaquina? Quanto mais fidalgas, mais desavergonhadas!... Inda hontem a minha Euzebia, que está em casa d'uma certa fidalga que vmc.e sabe tão bem como eu, me contou que a sua ama estava com um inglez á janella a dar-lhe beijos, e que elle lhe dava beliscões nas pernas. A minha Euzebia deu fé d'esta pouca vergonha, sem querer; e a fidalga tambem viu que a rapariga deu fé; e disse-lhe depois: «Euzebia, nós cá as fidalgas podemos fazer isto que viste; e vós outras plebeas, não, porque não tendes nada senão a vossa honrasinha.» Ora que lhe parece isto? dá mesmo vontade de lhe responder: «Vá-se d'ahi, sua porca; se vossa excellencia tivesse o miolo no seu logar não consentia que lhe estivesse um herege lá do fim do mundo a beliscar as pernas, e a pôr-lhe os beiços no cachaço!» Fora com as libertinas!

—Tem razão, tia Bernarda... a religião é cá só para as pobres. As ricas o que querem é ir á igreja mostrar os aceios... Disse outro dia um prégador na Victoria, que a casa de Deus estava sendo uma feira, e que nosso Senhor pozera as pelicanas fóra do templo... As pelicanas são as fidalgas... Olhe lá... aquella sumelga, que alli mora, será fidalga?

—Acho que sim. O pae era o senhor arcediago de Barroso, e a mãe ouvi rosnar que era uma das taes pelicanas...

—Consta que tem muito de seu.

—Muitos bragaes, muita prata, não sei quantas moradas de casas, e uma quinta em Paranhos... Que comer não lhe falta; mas acho que a respeito disto (pondo o dêdo na testa) não regula lá grande cousa... Veio aqui ha dias á minha loja uma mulher de mantilha, ainda frescalhona, e perguntou-me muitas cousas a respeito da tal rapariga. Quem entrava, quem sahia, se ella andava pela rua, se tinha muitos aceios, em fim, eu fiquei com a pedra no sapato, e cá de mim para mim entendi que aquillo era uma refinada alcayota. Tambem hei de saber quem tu és—disse cá com os meus botões—e mandei, assim que ella sahiu, o meu galleguito atraz d'ella. Veio dizer-me que morava n'um baixo da rua Direita, e que se chamava Anna do Carmo...

—Eu sou da sua ideia... isso era de alcofeira, que vinha saber se lhe poderia entregar alguma cartinha d'aquelle fidalgo que mora á Victoria, e que tem o nariz apurado para as moças como gato para boches. Ha de ser isso...