—E como pôde depois v. s.ª obter os meios para ir estudar, independente do subsidio de seu tio?

—Com o trabalho. Como sei francez, traduzo novellas, que vendo a um livreiro de Lisboa, e do escasso producto d'este trabalho fiz a minha independencia. Algumas dividas contrahi, na esperança de ser um dos herdeiros da riqueza de meu tio. Quando cheguei ao Porto, e me disseram que esse homem casava com uma orphã, pensei que era v. s.ª a feliz ou a infeliz destinada a essa gloria ou a esse sacrificio. Resolvi logo, em nome de minha mãe, e em nome da nossa amizade de infancia, vir supplicar-lhe que não tolhesse o nosso futuro, visto que v. s.ª era rica. E vinha cheio de esperança, na certeza de movel-a em nosso favor. Desgraçadamente enganei-me; mas, de todo o meu coração lhe digo que estimo vêl-a livre d'um perigo tal. Com a sua formosura, com a sua intelligencia, seria barbara a escravidão a tal velho, que o ouro, e só o ouro fez digno de vincular uma mulher nova áquelle quasi cadaver. Faz-me lembrar os supplicios de Mezencio!...

D'este arrazoado bem se vê que o senhor Augusto Leite, estudante do 2.º anno juridico, traduzia novellas, e conservava alguma cousa de memoria.

Rosa, tocada no sentimentalismo, respondeu:

—Commoveu-me a sua narração, senhor Augusto! Espero acredite que me amarguram os seus padecimentos, e déra quanto possuo para minorar-lh'os. Eu não me esqueço de que foi v. s.ª a unica pessoa de sua familia, que me não enjoava com os tregeitos, momices e impertinencias d'uma baixa educação. Sua mãe, que raras vezes vi, parecia-me uma celeste creatura. Muitas vezes me disse que tremia de me vêr n'aquella casa, porque eu era o instrumento com que seu irmão ameaçava destruir os planos de seus sobrinhos. Ella enganou-se, e elle tambem. Eu só posso ser escrava, quando a escravidão me fizer rainha. Olhei sempre com enjôo para esse velho, e por fim detestei-o... Hoje, porém, chego a lamental-o, porque vai ser um ludibrio de sua mulher. Quem ha de vingal-o, senhor Augusto, é Maria Elisa. A indole d'ella conheço-a eu perfeitamente. Seu tio vai ser a fabula do povo, e a sua nova tia ha de deixar nome; mas não deixará bens de fortuna que tirem da miseria os seus herdeiros...

—Quanto é suave ouvil-a fallar, senhora D. Rosa! Quem diria que o tenro botão abriria do seu seio uma linda flôr, com taes perfumes!...

—Muito agradecida, senhor Augusto... Eu tenho deixado fallar o coração, e creio que acreditará na extremosa vontade que tenho de ser prestavel...

—V. s.ª é uma divindade. Minha mãe virá abraçal-a como abraçaria... uma filha. Eu retiro-me com o coração embalsamado das suas palavras, e entrei com elle atravessado de agudos punhaes. As suas expressões são como a lyra do Orfeu, que adormecem as dôres, ou como a harpa de David que acalentava as tribulações de Saul! (extracto da LUIZA OU A CABANA DO DESERTO, pag. 26.) Ninguem diga que é verdadeiramente infeliz. Ha anjos, encarregados de cobrirem de flôres os espinhos que nascem sobre a carreira de alguns mortaes! (este é de pag. 31, de SOPHIA OU A DONZELLA HOUZARD, e não presta para nada hoje; mas n'aquelle tempo tinha novidade.) V. s.ª é um d'esses anjos, e eu sou o mortal que mereceu á Providencia Divina a benefica assistencia dos seus desvelos! (OS SYBARITAS OU OS SUBTERRANEOS DE PIOMBINO, pag. 41.) Se os meus labios não tem ardentes phrases, o meu coração arde em penas de serem frios os labios! (O HEROISMO DO AMOR, pag. 202.) Finalmente, não a importuno mais. Dê-me v. s.ª as suas ordens. (Isto agora é d'elle.)

—Espero que me faça muito recommendada a sua mãe, á qual offereço a minha casa; e v. s.ª, dignando-se honrar-me com a estima que outr'ora lhe mereci, muito me obsequeia vindo aqui passar alguns instantes de conversação.

—Eu tenho a honra de offerecer a v. s.ª as novellas que tenho publicado. Se fossem minhas, não me atreveria a tanto; mas, como são de bons authores, e apenas tem de meu a incorrecta versão...