—É uma terrivel visinhança esta!—disse Rosa—estou anciosa pelo S. Miguel para occupar o meu predio da rua do Almada...
—Tem razão, minha senhora; o bêco é detestavel... Tornando á nossa conversação, disse-me v. s.ª que não conhecia meio nenhum de obstar ao casamento d'aquelle reloucado!
—Eu, pelo menos, ignoro os sortilegios que desmancham as loucuras d'um velho...
—Não ha meio de dissuadir a sua amiga?
—Já lhe disse que não, senhor Augusto, essa pessoa nem é minha amiga, nem é docil para ceder a instancias de ninguem. O que ella quer é ser rica, e a occasião que se lhe offerece agora, é a mais propicia ao complemento das suas ambições.
—É admiravel que ella, habituada com v. s.ª, não aprendesse a nobreza de caracter, e independencia com que a senhora D. Rosa repelliu a fortuna de meu louco tio!
—Bem vê v. s.ª que eu, se não sou rica, herdei a independencia, e Maria Elisa julgou pessimamente a minha alma. Suppoz-me capaz de lhe retirar a mão generosa que a tirára da servil condição de orphã... Quer tambem ser rica...
—V. s.ª desde creança mostrou um coração nobre. Lembra-se, ha quatro annos, quando pedia a meu tio que me deixasse ir para Coimbra estudar?
—Lembro, perfeitamente... e elle enganava-me, dizendo-me que sim, e por fim...
—Tinha-me traiçoeiramente preparado a minha ida para o Brazil, para se vêr livre das exigencias de minha pobre mãe, e irmã d'elle, que lhe pedia um subsidio para a minha formatura.