—Então não ha outro remedio, Leonardo?

—Nenhum. Está de pedra e cal. Não quer casar por bem nem por mal. Diz que tem repugnancia em ser tua mulher.

—Sim?!-atalhou o senhor Silva atrozmente ferido na sua vaidade—pois, n'esse caso, faz o que quizeres, e tira-m'a quanto antes de casa.

—Olha cá, Antonio... Eu parece-me que a pequena, em se vendo fechada no recolhimento, onde não conhece ninguem, nem tem janella para a rua, mudará de vontade, e quererá casar...

—Comigo? Isso nunca! Deus me livre! Má mez para ella! Lembras-te do chinó do meu visinho?

—Ora deixa-te d'isso, meu amigo. Nem todos os maridos são calvos... nem todas as mulheres fazem marrafas. Dá tempo ao tempo. Quem lida com mulheres, lida com o diabo. É preciso atural-as. Sabes lá o que eu tenho soffrido com ellas?

—Eu é que não estou para brincadeiras... Estava muito socegado, ha tres annos; para que vieste tu inquietar-me com o negocio, que me propozeste em Campanhã? Guarda a tua filha, que eu morrerei solteiro.

O senhor Antonio José da Silva, dizendo isto, melhor avisado, bebia uma limonada, e o arcediago de Barroso calçava os sapatos de fivela.

N'este momento entrava a senhora Angelica, de mantilha, e camandulas de pau preto pendentes nas mãos, que trazia sobre o seio em postura beatifica.

—D'onde vens, Angelica?-perguntou o irmão.