Esta pertinaz resolução espantou o arcediago, e convenceu-o de que sua filha estava innocente das suspeitas de Angelica, beata crendeira em encantamentos, inguiços, e lobishomens. Se a pequena tivesse namoro com o filho do João Retrozeiro, de certo não acceitaria com tanta presença de espirito a condicional do recolhimento. Assim o pensava o licenciado, que tinha muita experiencia do mundo, e essa muito cara, a julgar pelas cifras que accumulou o negociante, orçando as despezas do casamento da mãe de Rosa.

Teimoso, e esperançado nas boas maneiras, entrou em negociações amigaveis com a menina. Pintou-lhe o melhor que pôde a vantagem de ser brevemente uma viuva rica, e a liberdade que teria então de escolher um marido mais galhardo. Repetiu a seducção dos vestidos, e dos diamantes; encareceu as delicias do theatro; soprou-lhe a vaidade, imaginando-a invejada pelas mulheres de todos os negociantes do Porto; emfim, por não fechar o discurso sem uma immoralidade, com palavras equivocas, dissertou pouco christãmente ácerca dos deveres da mulher casada.

Rosa insistiu na recusa. O padre irou-se outra vez; deixou cahir a caixa, no excesso da indignação; verteu no peito da camisa quatro pingas de rapé; escumou pelos cantos da bôca; pizou uma perna ao papagaio; entalou o rabo da gata, que saltou, bufando, para o peitoril da varanda; e acabou por dizer, em voz cavernosa, que Rosa, no dia seguinte, sem mais delongas, seria fechada no recolhimento de S. Lazaro, para não vêr sol nem lua.

O senhor Silva ouvira os ultimos berros, e zangou-se contra o padre. O seu amor não lhe consentia um ultraje a Rosa, apesar de ingrata. Em cuecas, e com a camisa em ventilador subia a escada; mas, a meio caminho, olhou para si, e viu, na sua consciencia, que não estava decente. Tornou atraz a enfiar as pantalonas de linho, quando o arcediago descia com a cara côr de lagosta, e os olhos turgidos e encarniçados como dois medronhos bravos.

—Não fazes senão asneiras, Leonardo—disse o negociante, impando com a difficuldade de enfiar a côxa roliça nas pantalonas, que queria vestir ás avessas, no auge da atrapalhação.

—Eu não faço asneiras. Sou pae, e quero ser obedecido.

—Que vaes tu fazer?

—Ámanhã ha de entrar no recolhimento por força.

—Deixa-te d'isso; não afflijas a rapariga por minha causa. Eu não consinto...

—Não preciso do teu consentimento. O caso agora é comigo, não é comtigo. Veremos quem vence.