«Peneira, tu que peneiras? Pão para toda a christandade. Pelo poder de Deus peço-te que me digas se a Rosinha ha de casar com o senhor Antonio; se tiver de casar, vira-te para a direita, e senão vira-te para a esquerda.»—A peneira oscillou alguns segundos, e ficou voltada para a esquerda.
A pobre Angelica deixou pender o beiço inferior, que, ha quatro annos, lhe tocava na ponta do nariz! Estava profundamente triste e aterrada! O seu ôlho esquerdo fallou da abundancia do coração. Uma lagrima, côr de agua-pé, rolou-lhe perguiçosa nas verrugas da face.
—Sabe o que mais, senhora Angelica?—disse Escolastica, commovida, e atufando a pitada na fossa anfractuosa da venta direita—sabe que mais?... vamos prender a rapariga.
—Isso será cousa de escrupulo, e eu tenho medo que Deus me castigue.
—Agora castiga... Ha de ensinar ao seu irmão esta oração: «S. Marcos te marque, S. Manso te amanse, os quatro Evangelistas te batam á porta do teu coração, Sanctissima Trindade te confirme na minha vontade, para que nem na cama, nem na mesa, nem no lar, sem mim, não possas estar, rir e fallar, e já, e já, e já com todo o pacto.»—Esta oração ha de seu irmão dizel-a, e quando disser com todo o pacto ha de dar tres vezes com o pé direito no chão. Passados nove dias, em que eu hei de rezar a novena das almas, e ouvir as vozes, appareça vmc.e por cá, e veremos se é preciso trazer roupa d'ella para a defumarmos nos quatro cantos com o fogareiro de S. Cypriano.
A senhora Angelica deu por bem empregados os seus dous patacões, e passou o resto da tarde a rezar os versos de S. Gregorio, e a novena de Sancta Apolinaria, em S. João, onde estava, n'esse dia, que era sexta feira, exposto o Sanctissimo.
Ora aqui está d'onde vinha a irmã do senhor Antonio José da Silva.
Dobrada a mantilha, e a saia de durante, a senhora Angelica desceu a procurar seu irmão, e, farejando os cantos da sala, viu que ninguem lhe testemunhava a tremenda revelação, que ia fazer-lhe.
—Então já sabes o que acontece?-perguntou elle, emborcando o segundo pucaro de limonada.
—Que foi, meu Antoninho?