—A Rosa vai-se, ámanhã, embora.
—Vai! Louvado seja Deus!... bem m'o disse a Escolastica!...
—Quem é a Escolastica?!
—É cá uma mulher, muito temente a Deus, que vê o que se passa na alma...
—Deixa-te de crendices... não creias em maranhões...
—Credo! não digas tal, Antonio, que não vá Deus castigar-te, e ella sabel-o... Se tu soubesses o que ella me disse...
—Não sei, nem quero saber... Has de sempre ter essa mania! Pergunta ao padre Leonardo por isso, e verás a rizada que elle te dá...
—Bem me importa a mim a risada do padre Leonardo!... Não... aquelle não é cá dos meus!... Padres com filhas... não quero ir com elles nem para o céo... Sabes tu que o tal arcediago me parece jacobino!... Deus me valha, se pecco... Cala-te, bôca...
A devota mulher, incapaz de infamar, dava uma sonora palmada nos labios, quando apostrophou a bôca falladora, e lhe impôz silencio, que mais eloquente que a bôca, segundo diz o poeta latino, fallou assim:
—Tenho cá minhas aquellas com este padre!... Elle não diz missa, nem préga a quaresma, nem vai ás via-sacras, como o padre Aniceto, meu confessor, e o padre Benedicto dos Carmelitas, que reza os exorcismos. Deus me acuda—continuou ella em voz alta—mas não tenho fé com padres que tem filhas, e casam as mães com outros, de mais a mais com um pelitrão da França, que é hereje, e jacobino na alma e no corpo...