—Cala-te lá, que estás ahi a dizer parvoíces. O padre Leonardo é um homem honrado, que não vai ás via-sacras, mas tem temor de Deus. Lá, se deu a sua escorregadella, em bom panno cahe uma nodoa. E, se elle não fosse um bom pae, não obrigava a filha a entrar, ámanhã, no recolhimento de S. Lazaro.
—Que me dizes, Antonio da minha alma? Pois a Rosa vai para o recolhimento?
—Vai, podéra não!...
—Bem o disse a serva de Deus! Ai! que tudo nos vai sahindo como a benzedeira o disse... O az d'ouros, lá estava o az d'ouros, Antonio! Não tornes a fazer pouco dos adivinhamentos. Tudo m'o disse ella, e muitas cousas mais... Abençoados dois patacões!
—Ó mulher, tu pareces-me tôla! A impostora da velha podia lá saber isto! Botou-se a adivinhar!
—Ó Antonio, tu não me pareces catholico!... Sancto nome de Jesus! Pois, sem aquella de Deus, sabe lá ninguem futurar o que te ha de acontecer? Não sejas assim, meu bom irmão. Lembra-te dos inguiços que te fez Thereza (Deus lhe perdôe, se já morreu), aquella desavergonhada que tinha levado as tuas cuecas da roupa suja para as benzer uma feiticeira da rua Chã, e se não fosse a devotinha Escolastica ainda hoje terias o demonio á perna, Deus me perdôe!...
—Vai-te d'ahi, que a Thereza não tinha demonio nenhum...
—Não tinha não... Pois não lhe viste a abstrucção de ventre, que ella trouxe, e só com as rezas da Escolastica é que o berzebum a deixou a ella, e a ti? Valha-te o Senhor!... Diz-me com quem andas, dir-te-hei as manhas, que tens.
—Está bom... Vamos tratar de cear, que são nove horas.
—Está a Anna a segar o caldo... Antes d'isso quero dizer-te duas palavras.