O leitor ficava maravilhado do successo, e contava á familia a passagem com as lagrimas nos olhos.
Espero tambem não perder esta ideia, e o leitor terá occasião de avaliar duas obras primas. Por emquanto, peço ao respeitavel publico que suspenda o juizo a respeito da minha capacidade inventiva.
Já agora, porém, atemos o fio d'esta fastidiosa historia, e vejamos quantas moralidades podem produzir dous casamentos honestos.
O secundanista de direito casou oito dias depois de seu tio, e tomou conta da administração da casa, que recebeu do tutor de sua mulher.
Nos primeiros dias parece que leram muitos romances, e aligeiraram as horas em deliciosas palestras sobre a Experiencia amorosa, e Sophia ou o Consorcio violentado, romances muito lidos n'aquelle tempo.
Ao cabo de quinze dias, Augusto Leite não era certo á hora da leitura, e vinha, meia hora depois, pretextando negocios da casa.
Ao cabo de um mez, o extremoso marido deixava sua mulher a lêr as Viagens de Gulliver a sua sogra, e elle sahia a negocios domesticos, que lhe empatavam o tempo até ás 11 horas da noite.
Ao cabo de dous mezes, o digno apreciador da litterata, se sua mulher lhe perguntava a razão da demora, encarregava sua mãe de responder suavemente, porque a paciencia já lhe não dava azo para tantas satisfações.
Findo o prazo de dous mezes, Augusto foi para Coimbra continuar a sua formatura, e convenceu sua mulher de que não era costume as mulheres acompanharem seus maridos ao fóco da immoralidade. Rosa ficou, portanto, na companhia de sua sogra, que lhe enxugava as lagrimas saudosas, pedindo-lhe que lêsse a Joaninha, ou a Engeitada generosa. Seu marido escrevia-lhe todas as semanas poucas linhas, mas essas eram calidamente amorosas. Rosa indemnisava-lh'as com longas cartas, bonitas de linguagem, com muita meiguice em phrase pomposa, e muitas outras galanterias a que o academico, diga-se a verdade, não dava a maior importancia.
E vejamos porquê: