Augusto Leite tinha uma paixão unica: era o jogo; mas o jogo fôra o seu inferno, obrigára-o a fazer uma triste figura, como hoje se diz, porque perdia sempre. A sorte que o perseguira em solteiro não lhe era mais propicia em casado. O estudante continuava a jogar, e a perder; mas as perdas agora avultavam mais, e ateavam-lhe a paixão com mais ardor.

Depois do jogo, o pensamento subalterno do marido de Rosa Guilhermina era uma tricana, rapariga do campo, fresca e rosada, que vivia com elle, desde o primeiro anno, e que viera ao Porto durante as ferias grandes, em que se realisára o casamento do nosso traductor de novellas. Augusto transigiu amigavelmente com a rapariga, promettendo-lhe um cordão de ouro de vinte mil reis, uns brincos de sete mil e duzentos, dous pares de chinelas, umas côr de gemma d'ovo, e outras verde-gaio, afóra um capote de castorina côr de mel. De mais a mais, obrigára-se elle a tel-a em sua companhia, com tanto que ella não fizesse barulho.

As condições estipuladas, de parte a parte, foram cumpridas. Benedicta vivia, sem fazer barulho, na rua do Coruche com o seu academico, e conseguira, além dos dous pares de chinelas, um terceiro par de sapatos de cordovão com fitas, e uma mantilha de durante com aquelle bico escandaloso que usam as mulheres de Coimbra, que são as mulheres mais feias que Deus nosso Senhor depositou na face da terra.

Nas ferias do Natal, Augusto Leite veio consoar com sua familia. Houve muito beijo, muita saudade, foram á missa do gallo á Sé, comeram muitos confeitos de chocolate, e não tiveram tempo de lêr romances. Os outros dias correram rapidos para a carinhosa esposa. No ultimo fez certa revelação a seu marido, com a qual elle se mostrou contentissimo, e sentiu a innocente vaidade de ser pae.

O academico partiu, e d'aqui até aos Carvalhos foi imaginando o systema de banca-portugueza que lhe desse a desforra de seiscentos mil reis, perdidos até ao Natal. E tal era a certeza da desforra, que não duvidou contrahir o emprestimo d'um conto de reis, por isso que o patrimonio de sua mulher eram só propriedades.

O imaginado systema falhou, ou pelo menos não tinha vingado ainda, quando o imaginoso jogador perdeu o ultimo real do conto de reis.

Revoltado contra o traiçoeiro systema, seguiu o contrario, e perdeu tambem. As meditações incessantes no methodo de ganhar, absorveram-lhe o espirito de modo que o estudante foi reprovado, e retirou de Coimbra, onde dissipára seis mil cruzados, e ficára devendo dous.

No Porto eram geralmente sabidas as dissipações de Augusto Leite. Sua mulher fôra avisada por cartas anonymas, mas o seu espirito era altivo de mais para rastejar nas mesquinharias do dinheiro. O juiz dos orphãos é que não era tão sublime; e, instigado por o senhor Antonio José da Silva, resolveu intervir na ruina do patrimonio de Rosa, sujeitando-a a uma tutela, visto que seu marido era incapaz de administrar. Augusto Leite quiz provar que tinha muito juizo, mas parece que provou de mais, e peccou pelo excesso. As testemunhas disseram que nunca o tinham visto atirar pedras. Isto que devia convencer o juiz dos orphãos, o mais que fez foi tranquillisar-lhe o espirito dos receios de ser apedrejados pelo dissipador. Tenho á vista os autos d'este processo, e sou obrigado a confessar que o juiz julgou em boa harmonia com Pegas, e Carvalho, e Pereira de Mello.

Era um magistrado probo. Permittam este entre-parenthesis, porque o meu fraco é chamar probos a todos os magistrados, que recebem peitas, porque os ordenados não chegam a nada. N'este paiz, um magistrado probo já deu esta razão em pleno parlamento, e desde esse dia todos os magistrados são probos, e a probidade e a beca e os sapatos de fivela e as meias de seda, a rectidão e os bofes da camisa ficam sendo insignias de todos os magistrados.

Que é o que eu vinha dizendo? Não ha nada que me incommode tanto como ter de lêr o que escrevo... Acho que fallava no nascimento d'uma filha de Rosa Guilhermina... Ha de ser isso... Pois é verdade: nasceu a tal menina, e foi baptisada com o nome de Assucena, da qual se ha de fazer larga e pungentissima chronica.[4] Era uma linda creancinha, que a mãe offerecia ao pae, mas o fraco de Augusto não eram as creanças. Apenas a tomava dos braços de Rosa, douda de contentamento, passava-a aos braços da avó, que, por força, queria que a pequena se parecesse com ella.