Augusto vivia triste. Os carinhos de sua mulher não bastavam a desenrugar-lhe a testa, sempre carregada para os afagos da pobre senhora. Passeava sósinho no quintal, e, quando a timida mulher se aproximasse, retirava-se elle a meditar no seu quarto.
—Eu desconheço-te!...—dizia Rosa, tomando-lhe meigamente a mão insensivel—Que tens tu, Augusto?... já me não adoras com aquelles extremos de ha um anno? Que te fiz? Não tenho eu sido tão igual para ti?
—Tens, Rosa... Não repares na minha tristeza... Isto é organisação...
—Pois assim variam as organisações!... Grande mudança transfigurou o teu genio!...
—Que queres!... Eu não me fiz...
—Pois sim; mas porque soffres?!
—Porque não sou um homem vil, a quem se tire infamemente a administração d'uma casa...
—Mas tenho eu culpa de tal infamia!... Não fui eu propria fallar com o juiz?! Não empreguei os rogos, e as lagrimas com esse barbaro que quer governar o que é nosso?! Serei eu culpada n'essa fatalidade!...
—Não és... eu não te accuso... mas deixa-me, se não pódes remediar esta punhalada que se deu na minha honra! Foi um ultraje cobarde, forjado nas trevas, á sombra da lei!... Despotas!... Eu hei de vingar-me de vós, ou a minha dignidade nunca mais erguerá a fronte diante dos homens! (Reminiscencias d'um romance intitulado: EMILIA DE TOURVILLE, OU OS MEUS SETE ANNOS DE PERSEGUIÇÃO.) Feriram-me na corda mais sensivel da minha honra! Exauthoram-me dos direitos communs, a mim, que conheço, profundamente, as raias, que separam a demencia irresponsavel das operações do intellecto são! (Ideias pilhadas a dente na SCIENCIA DOS COSTUMES.) Fallarem-me no jogo!... Privarem-me do uso da minha fortuna, por que jogo!... Quem póde privar-me de abrir com uma alavanca de ouro a minha propria sepultura! (Pensamento soffrivel, roubado ao JOGADOR, comedia de Regnard.)
—E gostas assim de jogar, meu querido Augusto? Achas prazer no jogo?