No dia seguinte ao da sua partida, Rosa Guilhermina recebia a sua prata, e este bilhete:
«Não desdenhes uma lembrança da tua velha amiga. Comprei essa prata, e quiz presentear tua filha com ella.
«Maria Elisa.»
A prata fôra comprada pelo senhor Antonio José da Silva.
[CAPITULO XXI]
Já não viviam na rua das Flores os disparatados conjuges.
O senhor Antonio José, quinze dias depois de casado, fechou a sua loja de pannos e algodões, traspassando-a. Fôra esta a primeira exigencia de sua mulher. Tanto elle como Angelica resistiram um pouco ás razões frivolas de Maria Elisa; mas o amor vencera, e o covado e as balanças foram offerecidas em holocausto a hymeneu, como dizia a mulher de João Pereira, rindo-se muito da aristocracia balôfa da sua visinha, que lhe não dava tréla.
Fechada a loja, e liquidados os lucros, o senhor Antonio, por escolha de sua mulher, foi viver na ultima casa que o leitor encontra na rua da Rainha, que n'esse tempo não tinha nome. Era uma casa de quinta, com ares apalaçados, onde a senhora Angelica se dava pessimamente com os ratos enormes que tiveram o barbaro appetite de lhe comer a manga esquerda do seu capote, na primeira noite, e tentaram a temeridade de lhe roer a unha d'um dedo do pé! Inscrevemos aqui as amarguras da senhora Angelica, porque nos impozemos a obrigação de commemorar todas as lagrimas d'este desventurado enredo.
O senhor Antonio José da Silva comprou carruagem. Esta immoralidade custou muitos padre-nossos a sua irmã, que esperava todos os dias um raio fulminante sobre os cavallos, que conduziam sua cunhada a passeio pelas estradas de Braga e Guimarães, que eram n'esse tempo um pouco melhores que hoje, porque eram de pedra, e a civilisação não tinha ainda inventado o cascalho.
O senhor Antonio cahira na imprudencia de entrar, uma vez, na carruagem, e viu desgraçadamente realisadas as suas previsões! Foram taes os solavancos que soffreu aquelle globo de carne, taes entaladelas flagellaram os seus rofêgos esponjosos, que, tres dias de cama, o nosso bom amigo difficilmente digeria a mesquinha refeição do costume.