Maria Elisa nunca mais o convidou para o martyrio da carruagem. Era uma excellente esposa! Conhecera profundamente que as dimensões abdominosas de seu marido não comportavam a agitação febril do seu espirito. Ia, portanto sósinha, emquanto seu marido cultivava uns repolhos e umas melancias que plantára e semeára para ter em que exercitar as suas forças musculares.

A Providencia nem sempre é justa para os bons cultores da hortaliça! Emquanto o senhor Antonio estudava a maneira de salvar do bicho a folha exterior do repolho; emquanto o bom cidadão classificava methodicamente a natureza do estrume, com que deviam adubar-se os terrenos de melancia; emquanto, finalmente, o negociante retirado legava á humanidade um prestante serviço em horticultura, sua mulher andava por lá fazendo cousas, que aqui vamos escrever para caução de todos os maridos, que espreitam a toupeira no cebolinho, emquanto suas amaveis mulheres vão comprar tarlatanas, e rendas.

O leitor, se tem attendido á melhor historia que se tem escripto n'estes ultimos annos, ha de lembrar-se de um senhor Fernandes, que assistiu ás bodas do senhor Antonio, e que tinha uma linguagem distincta, e umas ironias salgadas a sabor de D. Maria Elisa de Sarmento e Athaide.

O senhor Fernandes, de trinta e tantos annos, aspecto agradavel, com algum espirito, com muita pouca materia, amigo de livros, e mais ainda das boas mulheres, era o maior peccador que produziu a rua das Flores. Contra todas as leis da honra, contra o mais respeitavel dos preceitos do decálogo, o senhor Fernandes tinha uma diabolica vocação para a mulher do seu proximo! Cahe-me da mão a penna indignada por se vêr na dura precisão de archivar este escandalo! Lucto, ha oito dias, com a veracidade do ignominioso facto, que vou enunciar com as lagrimas nos olhos, e o pudor na face. Quizera cobrir com o véo da caridade esta ulcera; porque antevejo o doloroso vexame que involuntariamente vou inflingir ao leitor pudibundo! Não é possivel. Sou muito amigo do publico; esforço-me por manter a moral na temperatura em que a encontrei; mas, como o amigo de Platão, sou mais amigo da verdade. É necessario dizer-se ao menos metade do que sei. Benzamo-nos, pois, primeiramente, para que Deus nos livre de maus pensamentos, e das tentações hediondas d'este grande peccador, que a estas horas já sabe o bem ou mal que fez!...

Fernandes (proh pudor!) entendeu que devia namorar Maria Elisa, a esposa do seu visinho, a mulher do seu proximo, que é sempre um sugeito respeitavel, ainda que seja um grande tôlo; ou um grande maroto!

Ouseiro e veseiro de similhantes impudicicias, este monstro fôra o primeiro immoral que tentára a honestidade da senhora D. Marcellina, esposa muito querida do senhor João Pereira, e, pelos modos, assidua cultora dos estudos da natureza. Esses estudos quem lh'os fez appetecer foi elle! Não queremos fazer pêso aos seus enormes peccados, mas releve-nos a sua alma o encargo que lhe fazemos de ter sido elle o mestre de astronomia de Marcellina. Sem os prelogomenos, que elle lhe ensinou, nunca ella viria, alta noite, estudar o «planeta sete-estrello»! Á sombra da sciencia, deu-se ahi uma grande immoralidade na face da terra! O crime infando, que hoje felizmente não tem sectarios, graças á civilisação que vai ensinando os limites dos deveres, não só internacionaes, mas tambem inter-visinhos, o crime infando (repetimos com os calafrios do terror na espinha dorsal); o crime infando, finalmente, consubstanciou-se de tal arte no sangue d'aquelle homem, que (vox faucibus hæsit!) não havia mulher casada, com um palmo de cara soffrivel, que o réprobo de Deus e dos maridos não tentasse abysmar nas profundezas do báratro perpetuo!

Mas pela litteratura tinha vindo um grande mal á senhora Marcellina, que não é digna do dom, attendendo á villã fraqueza com que se deixou embair das astucias d'aquelle grande velhaco, que já me fez suar tres vezes, desde que estou fallando nas suas impudencias!

De mais a mais, Fernandes era inconstante nas suas affeições, e cynico na maneira de se desquitar das fastidiosas mulheres, que o fatigavam depressa. Esta segunda immoralidade é uma questão á parte. A nossa missão, aliás repugnante (nunca cessaremos de lembrar ao leitor que nos parece impossivel este crime, como o parricido aos legisladores de Athenas!) a nossa missão é contar que o dito Fernandes tentou seduzir Maria Elisa!

O peor não é isto! A maior das vergonhas é ter eu de dizer que Maria Elisa, legitima representante de nossa avó, que comeu maçãs no paraizo, cedeu á tentação, e só torceu o pudibundo nariz duas vezes (ou tres, não me recordo bem) ás calidas manifestações d'aquelle grande desaforado, perverso, dissoluto, scelerado, e não sei mesmo se concussionario!

Quem soubesse isto, entrava no segredo dos constantes passeios de Maria Elisa. A sua habitual direcção era á Ponte-da-Pedra, a uma legua do Porto, na estrada de Braga.