No auge da desesperação, a sua alma tornou-se esteril, a sua lingua pegou-se aos gorgomilos, os seus labios resequiram como queimados pelos suspiros rugidores, que lhe subiam das soturnas catacumbas do peito. Um tremulo de sezão vibrava-lhe os musculos da face, especialmente os bussinadores, que a maior parte dos leitores não sabe o que é, mas por isso mesmo é que tudo o que eu disser tem um cunho de originalidade, que o senhor Antonio não sabia dar ao seu ciume, nem sua mulher á sua perfidia.

Esta falsa posição não podia durar muito. Se se prolonga mais cinco minutos, eu, por mim, declaro que largava a penna, e acabava o conto aqui. Não ha nada mais semsabor que a situação da mulher desleal surprendida por um marido, que nem sequer arranca de dentro quatro gritos, e reteza os braços na arripiadora postura de Orestes, insultando os deuses! Porque não disse o senhor Antonio alguma cousa fóra do commum?

Porque não fez estylo de marido, que é o mais mascavado de todos os estylos? Porque não exclamou: «Perfida mulher! hei de beber-te o sangue, e cevar no coração as minhas iras! hei de esfolar-te para memoria eterna! hei de mandar ao vento as tuas cinzas, e a tua alma a Satanaz! Oh! Ah! Ah! Oh!»

Com estas palavras já eu compunha um capitulo, porque as outras tolices encarregava-me eu de as pôr de minha casa, e juro que um dos maridos mais venerados e ferozes do seculo, que passa, seria o nosso amigo Antonio, com grande desfalque de João Pereira, que, no seu genero, não era mau.

Assim nem eu sei como hei de acabar o capitulo de modo que elle e ella não pareçam dous volumosos parvos! Se me lembrasse d'algum romance, que tenho lido, cousa que se parecesse com isto!... Ah!... Achei um bom desfecho, e que tem o merito de ser o mais natural de todos.

O senhor Antonio desceu solemnemente para a rua a procurar a jumenta, que tão grata portadora tinha sido do seu anhelante coração. A jumenta pilhando-se solta, fugira para casa, e não sei que monologo mental ella faria á sua liberdade.

O senhor Antonio pedira aos eccos a sua jumenta. Os sobreiros da encosta contemplavam silenciosos a sua dôr. A lympha dos regatos era como um arremedo cruel aos seus gemidos! Desgraça!

N'este angustioso conflicto appareceu Maria Elisa. A carruagem aproximou-se.

—O senhor veio a pé?—perguntou ella, vendo seu marido encostado a um pilar da ramada.

—Que lhe importa?—redarguiu o marido convulso, mettendo as mãos nos bolsos, e puxando as calças machinalmente para cima, dando-se a grutesca figura d'uma talha chineza.