—Mas então que historia é esta!... Ella vai assim rôta!

—Eu sei cá o que é! É o que tu vês...! Eu, logo que a avistei aqui n'este sitio, conheci-a, e ella puxou para o nariz a côca da mantilha...

—Que celebreira!... eu ainda hontem a encontrei a passear n'um jumento, com lacaio ao lado; e até me disseram que o fidalgo das Laranjeiras queria casar com ella.

—Tu não sabes a historia d'esta mulher?

—Eu não... ouvi dizer que fôra casada com um livreiro, aqui no Porto, e que depois ficára rica...

—É verdade... foi casada com um livreiro; mas o livreiro não deixou fazer o ninho atraz da orelha, e foi-se embora para a França, onde morreu. A tal senhora parece que lhe não foi fiel, e, na ausencia do marido, menos o foi ainda. Viveu na companhia do celebre arcediago de Barroso, que foi mandado sahir pelo bispo, e morreu na Hespanha. O padre era muito rico, e por muito tempo ninguem soube que fim levou o grosso cabedal que elle lá trazia comsigo. A final, ha de haver seis mezes, morre lá uma freira, que, á hora da morte, declarou que o tal arcediago lhe deixára em seu poder quarenta mil cruzados em ouro, para ella fazer entregar a Anna do Carmo, moradora não sei aonde. A freirinha, só á hora da morte se lembrou de cumprir o legado, e o caso é que não se lembrou mal, porque a pobre amante do arcediago estava vivendo miseravelmente ahi na rua Direita, e quando a procuraram para lhe dizer que se habilitasse para receber a herança, a pobre mulher já se não levantava da cama com fome. Ora aqui tens a historia da tal riqueza...

—Mas por ahi dizem que ella é fidalga...

—Isso é uma historia á parte. Apenas a mulher appareceu rica, soube que era fidalga, porque a fizeram fidalga á força, uns taes que moram ahi atraz da Sé, dizendo que ella era filha bastarda da casa. Começaram a visital-a, a hospedal-a, a chamar-lhe prima, e tem querido leval-a para a sua companhia... Ora, ahi tens a historia da mulher da mantilha... Quem me déra saber o que ella andaria a fazer por aqui... Eu parece-me que ella sahiu d'esta casa...

O tabellião olhou machinalmente para a janella, e viu esconderem-se duas cabeças: eram D. Rosa e a sua criada, que se retiravam espantadas do que tinham ouvido. E tinham razão. Eu, por mim, tenho-me espantado com cousas muito mais pequenas. Mas o que devéras me espantou, foi dizerem-me que Anna do Carmo, quinze dias depois, estava casada com o ex.mo snr. ***, fidalgo, morador atraz da Sé, e fôra, ipso facto, reconhecida prima de todas as familias illustres do norte desde os Leites até aos Albuquerques, desde os Cogominhos até aos Malafaias!

[CAPITULO XXIII]