—Sim, senhor. Quando os vi enfronhados estive por um triz a sahir da estrebaria, e dizer quem era, porque v. s.ª não seria tão barbaro, que maltractasse sua mulher, porque tem um primo que necessita das suas migalhas. O receio fez-me recuar no meu plano, e vim para casa meditar na minha triste sorte. Resolvi ter animo, e venho eu proprio accusar-me de ter sido o perseguidor de minha prima. O que ella me tem dado é tão pouco, senhor Silva, que eu talvez, vendendo este velho casaco e estas calças, possa embolsal-o. Quero ficar em mangas de camisa, mas não quero que minha prima soffra por minha causa.
—Com que então o senhor metteu-se-lhe lá na cabeça que eu cá sou homem capaz de tractar mal minha mulher, porque lhe deu alguma cousa? Ora adeus!... mudemos de conversa! O senhor como se chama?
—Pedro José Sarmento de Athaide.
—Já que fallou em Sarmento d'Athaide, faz favor de me dizer d'onde é que herdaram esses appellidos?
—Eu lhe digo... Meu quarto visavô João de Lencastre e Sarmento casou com minha quarta visavó D. Urraca de Athaide, da casa de Valladares no Alto-Minho. Tiveram quatro filhos. O morgado casou em Pena-Ventosa com a herdeira da muito antiga familia dos Pesicatos...
—Dos...?
—Pesicatos e Bemóes.
—Nunca ouvi fallar d'essa linhagem.
—Não admira, porque ficou toda essa familia sepultada em Lisboa, nas ruinas do terremoto de 1755. Foi uma grande desgraça para a posteridade do outro ramo d'este tronco illustre. O filho segundo de meu quarto visavô fez um mau casamento com uma mulher da plebe, e os dous seus irmãos foram frades; um morreu dom abbade em Tibães, e outro foi bispo de Constantinopla, e chamava-se fr. Zagallo Sarmento e Athaide.
—Nunca ouvi fallar d'esse senhor bispo de... Castanhóplas!...