—Pois, senhor, eu posso mostrar-lhe que elle era irmão legitimo do meu terceiro visavô, com documentos que param na Torre do Tombo.
—Não é preciso; eu vejo que v. s.ª falla verdade... Mas como é que o pae de minha mulher era negociante, e não era dos de primeira ordem?
—Isso explica-se pelos casamentos desiguaes. O vinculo passou para os parentes que temos em Macau, e já meu avô foi negociante, e teve de riscar de seu nome os appellidos de nossos avós, porque não podia sustental-os. Ora aqui está a triste historia dos meus ascendentes, que mal diriam elles que seu neto Pedro José de Sarmento e Athaide precisaria de estender a mão á caridade de estranhos!...
—Pois, senhor Pedro, não ha mal que sempre dure. O senhor fez muito mal em não vir ter comigo logo que soube que era seu parente por infinidade. Havia de topar um homem como se quer para o seu amigo. Não fez bem... mas emfim tudo se remedeia... eu vou chamar sua prima, e ella dirá o que se ha de fazer...
—Perdão... eu acho que não será bom que ella saiba que eu vim aqui, porque me não levará a bem a liberdade que eu tomei de me dirigir a v. s.ª, abrindo-lhe francamente o meu coração...
—Qual?... Ora o senhor então não sabe como ella é!... Verá que ha de estimar que se declarassem d'este modo cá certas suspeitas...
—Suspeitas!... quaes?...
—Eu cá me entendo...
—Mas eu é que não entendo... A minha honra está compromettida n'essas suspeitas... Sou pobre, mas tenho pundonor; exijo que v. s.ª, em nome da honra, me declare quaes foram as suspeitas...
—Eu lhe digo, senhor Pedro... Eu não sabia que minha mulher tinha primos, e, quando me disseram na estalagem que ella estava com um primo, metteu-se-me cá uma asneira na cabeça...