Não era, porém, filho do estudo este desdem. A chistosa amiga de Rosa Guilhermina vivia triste, porque vivia só. Desde que se entregára apparentemente ao extremoso negociante, as suas horas unicas de passageira felicidade eram as da Ponte-da-Pedra. Fernandes era um homem de não sei que perverso talento que seduz, capacita; e chega a victimar as proprias mulheres que teem a consciencia de que são victimas. Talento e corrupção eram já n'aquelle tempo uma espada de dous gumes com que se cortam os nós gordios do coração de certas mulheres. E Maria Elisa era uma d'essas certas.

O que ella teve de mais, entre as da sua escóla, foi uma caprichosa dignidade, que a fez esquecer num momento o amor d'um anno. Recordava-se de Fernandes com pesar, e odio; saudade, nunca. Quando se deixara cahir nas astuciosas ciladas, que elle lhe preparara, com o animo frio da experiencia das Marcellinas (que pelos modos eram muitas n'esse tempo, apesar dos frades, e da suspirada virtude de outras eras) tirára ella, como condição, um eterno silencio a respeito de seu marido. Parece que o galhofeiro amante epigrammou, uma vez, o abdomen do senhor Antonio, e teve, em vez de sorriso approvador, um gesto de desprêso, que elle reconciliou lá como pôde. O caso é que nunca mais cahiu na leviandade de ferir a susceptibilidade de Elisa, lembrando-lhe a monstruosidade moral e physica de seu marido.

Foi pessima lembrança aquella de enviar o cadete a representar de primo! Maria Elisa quereria antes ser julgada, qual era, por seu marido, porque a deshonra seria um segredo domestico, e a hilaridade publica não viria aggravar a vergonha de ambos. Mas o remedio comico e inesperado, que o inconsiderado Fernandes deu ao mal, era exacerbar a ferida, expondo-se ao ar da publicidade, e ao fel do ridiculo, prompto sempre a flagellar os maridos da escóla do senhor Antonio, que não são muitos, mas satisfazem as necessidades de alguns celibatarios que vieram ao mundo para chronistas dos infortunios alheios. Eu, que sou um dos que se honram d'essa missão, não posso deixar de confessar publicamente a minha admiração por esta senhora, digna (a todos os respeitos não direi, mas a alguns, de certo) d'outro marido, ou d'outro amante. Qualquer que tenha sido o seu peccado, a gente de bom coração tem pena d'ella, vendo-a, depois dos tristes acontecimentos que historiei com sincero dó, sósinha, entregue á escuridão da sua vida sem amor, sem luz, sem ar, alli sempre na presença do senhor Antonio, carinhoso até á desesperação, terno até ao aborrecimento, desvelado em extremos de meiguice tôla até dar vontade de o mandar comer e dormir.

Isso foi que elle nunca deixou de fazer. O estomago era uma cousa á parte na sua organisação. Eram dous Antonios n'um. O Antonio do ciume morreria de paixão: mas o António do estomago só uma indigestão poderia matal-o.

Sempre ao lado de sua mulher, inerte, sedentario, bufando, arquejando, impando, o nosso amigo sentia-se cada vez mais pesado. A medicina mandava-o passear a pé, e elle sem Maria Elisa, não dava um passo. Já não eram suspeitas. Era a tenacidade do amor, a reloucura da velhice que o prendia áquella mulher, como se prende a creança timida ao seio de sua mãe.

Correram assim tres mezes. Maria Elisa, cada vez mais triste, cahiu n'uma especie de doloroso somnambulismo. As janellas do seu quarto não se abriam nunca. Passava as longas horas do dia e da noite, lendo sem reflexão, e escrevendo cousas que o seu marido não entendia, mas gostava d'ouvil-as. Eram «melancolias surdas» como ella intitulara os trinta cadernos de papel em que as escrevera. Disseram-me que essas paginas perdidas continham cousas bonitas, pensamentos que não pareciam de mulher, energia de phrase, conhecimento do coração, e toque real d'uma verdadeira dôr. O que não viram n'ellas as pessoas, que me informaram, foi o nome de Fernandes. Parece que a imagem d'este homem fôra para sempre banida das saudades de Maria Elisa.

Constrangida pela soledade, a antiga orphã de S. Lazaro lembrou-se com amor da sua amiga de infancia. Queria revocal-a ao seu coração, d'onde nunca sahira, mas seu marido odiava Rosa, fazia-se côr de carmim quando lhe fallavam n'ella, e repetira muitas vezes que, emquanto elle fosse vivo, a filha do arcediago não entraria em sua casa.

Maria Elisa não replicava a este odio inveterado. Tinha compaixão do pobre homem que, desde certo tempo, vaticinava a morte. Já não comia com o mesmo appetite. Já não accumulava com prazer as sopas na tigella do caldo de gallinha. Sentia precisão de sentar-se, apenas se erguia, e acordava muitas vezes de noite com os pés frios e a cabeça em braza.

A senhora Angelica, sempre a mesma devota, depois das desordens, por causa do neto dos Pesicatos, metteu-se no seu quarto, em oração permanente, e apenas sahia tres vezes em cada doze horas para comer, visto que era necessario dividir a sua extatica existencia entre o oratorio e a cosinha. Quiz, algumas vezes, intrometter-se na vida de seu irmão, censurando a frieza de sua cunhada; mas não obstante a seriedade do assumpto, a senhora Angelica, se fallava só dizia asneiras, o que não succede sómente á senhora Angelica.

Consta que ella fôra uma vez ainda consultar a senhora Escolastica, a Massarellos; mas esta mulher tinha morrido de fome, não obstante predizer o futuro, que, parece, á primeira vista, um bom modo de vida, depois de jornalista, que são as Escolasticas de calças e paletó do nosso tempo.