Eu vou dizer-vos cousas pungentissimas. É com pena, realmente vos digo, que me vejo obrigado a deixar morrer uma das creaturas mais notaveis d'este romance. Accuso a medicina d'aquelles tempos por não ter salvado d'um ataque apopletico o senhor Antonio José da Silva. Se fosse hoje, este homem não teria morrido, sem que ao menos o esfolassem com quatro duzias de ventosas, e cento e tantos causticos. Tel-o-iam salvado com alguma d'essas medicinas, que disputam entre si a vida dos cidadãos, ao passo que as camaras municipaes mandam alargar os cemiterios. Felizes os que morrem hoje, que, se morrem, é porque não podiam viver mais.
O senhor Antonio deitou-se uma tarde, queixando-se de dôres de cabeça. Metteu os pés n'um banho de mostarda; mandou pedir a sua mulher que viesse fazer-lhe companhia, e recebeu-a morto, quando ella entrou. O facultativo chamado sangrou-o. A veia verteu algumas gotas de sangue negro, e fechou-se, porque as valvulas do coração estavam fechadas para sempre.
Maria Elisa tomou a mão do cadaver, e beijou-a sem lagrimas. A senhora Angelica veio ao quarto de seu irmão, e chorou muito, grunhiu desentoadamente, e atordoou a visinhança com gritos. Feita esta berraria de duas horas, comeu alguma cousa sem appetite; mas podia dizer que tinha fome que ninguem duvidaria da sua palavra. Ao mesmo tempo, Maria Elisa, que não gritára, nem chorára, fugindo do quarto de seu marido, fechára-se no seu, escondera a face nas mãos, e murmurou: «Perdi um pae! Sou orphã outra vez!»
[CAPITULO XXVI]
A viuva do honrado negociante, que passou da terra sem um necrologio, escreveu a Rosa Guilhermina uma carta que era um grito supplicante á sua amiga d'outro tempo. Pedia-lhe que viesse, porque a chamava de ao pé d'um cadaver. Só, sem amigos, e rodeada de riquezas inuteis, appellava para a unica pessoa capaz de avaliar a sua orphandade.
Rosa Guilhermina entrou com o portador da carta. Abraçaram-se, chorando. Fecharam-se, para se furtarem ás formalidades estupidas das visitas funebres, que nos vem dizer: «sinto muito» e nos obrigam a responder: «muito obrigado.» Dous dias e duas noites quasi não tiveram um intervallo de silencio. Soffriam ambas, soffriam muito, e já não sabiam adubar as conversações d'aquella fina especiaria de risos, que tanto promettiam, e em tantas lagrimas deviam converter-se depois.
—Já não somos as mesmas, Maria Elisa!—disse Rosa, abraçando a sua amiga, que lhe inclinava o rosto pallido no hombro.
—Já não... A nossa mocidade foi um dia... Parece-me que vivo ha muito... Tem-me lembrado a morte, como o maior beneficio que posso esperar do céo...
—E eu tenho-a pedido tantas vezes!...
—Tambem soffres, Rosa?! Não tens um esposo amado?