—Não.

—Como não? pois não casaste por paixão?

—Casei... e depois, vi que me tinha perdido...

—Pois que? elle não te estima?

—Não... arrasta-me na sua desgraça... Meu marido é um homem perdido... um ente sem honra, nem futuro, nem presente.

—Pois teu marido não está a formar-se em Coimbra?

—Já não trata d'isso... Meu marido é um jogador.

—Jogador!

—Sim, jogador de profissão... Gastou quanto podia gastar do meu patrimonio... O pouco que possuo para a minha subsistencia e de minha filha, tira-m'o com violencia. Foi riscado da universidade, veio ao Porto vender aquella prata, que tu déste a minha filha, depois de a comprares a meu marido, e foi para Lisboa, sempre acompanhado d'uma mulher ordinaria, que viveu na minha companhia quinze dias, e ousou dar ordens das minhas portas a dentro. Ha cinco mezes que não tenho, noticias d'elle. Nem ao menos me pergunta por sua filha. Sei que vive, porque, no fim de cada mez, se apresenta em minha casa uma ordem assignada por elle para eu pagar quasi tudo que o juiz dos orphãos arbitrou para o sustento da minha familia... Aqui tens a minha vida... Estou pobre... Maria Elisa!...

—Tu não estás pobre, Rosa! Não me falles assim, que me fazes chorar! Tu não estás pobre... Eu preciso que te esqueças de todo o nosso passado, para entrares de novo no coração de Elisa... Queres ser minha? Eu estou viuva, e viuva tambem tu estás... O teu coração não é já d'esse homem... É da tua filha, e meu; a tua filha é minha e tua, sim?... Não chores... Troquemos entre tres as nossas affeições todas... Vivamos n'uma só vontade... Foge para os meus braços, que não tem no mundo ninguem que os queira, a não seres tu... Faz-me outra vez sorrir para a vida, que n'estes ultimos dous annos me tem sido tão negra... tão negra... Rosa! Faz que a minha riqueza me seja uma cousa agradavel... Dá-lhe algum prestimo... Só tu podes, se vieres ser outra vez minha irmã, explicar-me a razão por que eu queria ser rica... Era para isto, era, minha querida amiga, era para nos fazermos felizes tres creaturas... eu, tu, e a nossa menina... Vai buscal-a... Vai... Não me digas que não... que me matas... Essa mesada que tens dá-a a teu marido... Que jogue, que se deshonre, mas foge-lhe tu, que não tens ainda uma nódoa na tua vida... Vem ensinar-me a ser boa, e honrada, porque eu tenho sido...