—São palavras para lhe dizer a ella?

—Não... Assim que a vires, has de dizer no teu coração...

—Cala-te ahi...

—Não me calo... tenho até escrupulo de me calar... Hei-de dizer-t'as. Ouve lá: «S. Marcos te marque, S. Manso te amanse, os quatro Evangelistas te batam á porta do teu coração, a Sanctissima Trindade te confirme na minha vontade... e... espera lá... deixa vêr se me lembra... ah! já sei... para que nem na cama, nem no lar, sem mim, não possas estar, rir e fallar, e já, e já, e já com todo o pacto.» Quando disseres isto, deves assim bater com o pé no chão uma, duas e tres vezes...

Á terceira, a senhora Angelica pilhou debaixo do pé o rabo desgraçado da gata, que soltou um doloroso grito, e vingou a affronta enterrando a unha no joanete esquerdo de sua ama. Angelica soltou um brado fremente de angustia. A gata rosnava, com o pello hirto, n'um canto da sala, e o senhor Antonio bascolejava com as nedias mandibulas uma gargalhada sincera.

[CAPITULO IV]

O salpicão fumegava na mesa, rodeado de ervilhas ensopadas. Ao lado, as tigelas do bem adubado caldo, opulento de gorda ôlha, ressumavam um cheiro appetitoso, que ludibriava o paladar dos rapazes da loja, aos quaes era só permittido o cheiro.

Angelica fôra chamar Rosinha para a mesa, emquanto seu irmão espostejava as talhadas pingues do paio de Lamego. A arrufada menina não quiz cear, e, para esquivar-se ás instancias da velha pertinaz, declarou-se incommodada da cabeça, cobrindo-a com o lençol.

O negociante engatilhava a cara em ar de despeito, e ensaiava as palpebras roliças n'uma postura sombria, que desse da sua dôr a alta ideia, que os queixos desmentiam, cevando-se na carne de porco, e nas ervilhas aromaticas.

Certo de que a ingrata filha do arcediago não vinha á mesa, o senhor Silva inutilisou a cara funebre, deu largas á testa franzida tyrannamente, e mascou, rugindo como os deuses d'Homero, a ceia substanciosa.