Descompunham-se em raivosas apostrophes por causa das mantas, que algumas d'ellas monopolisavam com grave escandalo e frialdade das outras. Dos improperios passaram a vias de facto. Socaram-se, esgadanharam-se, revolveram-se, creio eu, como uma matilha de cadellas, e vieram de encontrão á porta do meu quarto, que não resistiu ao choque, e deixou entrar aquelle embrulho indecifravel de gorgonas em fralda de camisa, que me pareciam, á luz mortiça da véla, executarem uma dança macabra, uma mazurka de demonios!

Eu levantei-me em pé sobre o catre de pau castanho, pintado de amarello, e presenciei com os cabellos erriçados o desfecho d'aquella tremenda lucta. O dono da estalagem, e o meu criado vieram protocolisar a desordem, distribuindo alguns murros indistinctamente, de que resultou a fuga desordenada das gallegas, para o seu arraial, ficando considerado o meu quarto campo neutro.

N'esse mesmo quarto, ás duas horas da noite, tambem o senhor Augusto Leite recebeu uma inesperada visita; mas não de gallegas em guerra crua. Eram oito soldados de cavallaria, commandados por aquelle esturdio cadete, que o leitor conhece, e reforçados por alguns meirinhos do corregedor, e um especial enviado do regedor das justiças.

Já soubemos que Augusto Leite roubára em Lisboa uns brilhantes. A razão por que os roubara deu-a Prudon depois: os brilhantes eram propriedade da condessa de ***, e a propriedade era um roubo.

Como se introduziu Augusto Leite em casa da condessa de ***? Não é bem liquido, e eu não quero inventar, porque não tenho necessidade de deslustrar a veracidade do meu conto por amor d'um incidente de pouca monta. Disseram uns que Augusto Leite era amante da condessa; outros affirmam que o academico, expulso da universidade, se valera d'um seu condiscipulo, primo d'essa senhora, para ser protegido por ella na sua admissão á academia. Eu, de mim, para não duvidar de nenhuma das explicações, acredito-as ambas, e não offendo os diversos opinantes.

O que devem todos acreditar é que Augusto Leite dispensou á condessa o trabalho de pôr o seu collar e pulseiras de brilhantes em um dia d'annos d'uma sua prima. As suspeitas recahiram em todos os domesticos, menos em Augusto Leite. No dia seguinte corria em Lisboa, que um academico, visita frequente da condessa de ***, tinha perdido, em menos de tres horas, trinta mil cruzados em casa do barão de Quintella. Os curiosos averiguaram o manancial possivel d'este dinheiro, e souberam que um judeu na rua dos Fanqueiros comprára na vespera por trinta mil cruzados uns brilhantes. A condessa, com authoridade judicial, fez que o judeu apresentasse os brilhantes comprados. Reconhecidos, apossou-se d'elles sem mais formalidade. O judeu gritou contra a extorsão, perguntando se reviviam os tempos nefastos de D. João III; offereceu-se voluntariamente para a fogueira; e a tudo isto, que realmente era pathetico, o procurador da condessa respondeu: res ubicumque est sui domini est.

O judeu não ficou sabendo latim, mas conheceu varios artigos da nossa legislação, e aproveitou-se d'aquelle que o authorisava a perseguir o ladrão.

Augusto Leite entrou em casa da condessa, quando ella voltava de reconhecer os seus diamantes. Um criado presenciou que ella algumas palavras lhe dissera, e o seu protegido respondeu a ellas, voltando as costas para nunca mais tornar. Os maledicentes quizeram inferir da generosidade da condessa, que o avisou, consequencias desfavoraveis para a honra d'ella. Como quer que fosse, Augusto fugiu de Lisboa, a pé, sem dinheiro, sem bagagem, com uma mulher ao lado, e assim vagou quatro mezes, não sabemos por onde, até que o vimos entrar em casa da viuva de Antonio José da Silva.

Tornemos agora a Casal de Pedro.

O enviado do regedor das justiças bateu á porta da estalagem, e perguntou que passageiros pernoitavam alli.