Augusto Leite retirou-se. Maria Elisa, com o coração alvoroçado de prazer, foi abraçar Rosa, e exclamou, com quanto amor podia empregar na soffreguidão d'um beijo: «És minha para toda a vida!»
[CAPITULO XXVII]
Sigamos Augusto Leite, emquanto sua mulher e filha dão a Maria Elisa a felicidade, que ella lhes remunera com afagos.
O jogador, febril de contentamento, entrou em sua casa, no Laranjal, disse algumas palavras a sua mãe, e mandou preparar a inseparavel moçoila, que o acompanhava, na boa e má fortuna, havia quatro annos.
Sahiu, e comprou uma jaqueta de pelles, uma faxa de sêda escarlate, chapéo de guizos, um par de pistolas, um cobrejão, e dous cavallos de baixo preço.
Duas horas depois, a rapariga, encadernada n'umas andilhas, passava na Ramada-Alta, estrada de Vianna, e Augusto Leite, com pau de chôpa debaixo da perna, esporeando o cavallo, á laia de cigano, caminhava a par com ella.
N'esse dia foram dormir a Casal de Pedro, e viram lá umas pulgas, cujas netas eu encontrei trinta annos depois, pulgas enormes e ferozes, que arrastam as meias dos passageiros, depois que lhes exhaurem as arterias d'um sangue azedado pelo maldito vinho, que a estalajadeira vos ministra, perguntando-vos se sabeis alguma mézinha para matar as bichas dos pequenos.
Pernoitei ahi uma vez na minha vida. Comprehendi, no quarto que me deram, os supplicios do christão primitivo atirado ao circo. «Christão ás pulgas!» deveria ser, no imperio romano, um grito de prazer para o paganismo sanguinario, como o fatal «Christão ás feras!»
Era alta noite, e eu não podia transigir, dormindo, amigavelmente com a ferocidade dos insectos, se é que não podemos chamar cetaceos áquellas pulgas, de horrivel recordação. No sobrado immediato ao da possilga em que eu me contorcia nas vascas d'uma agonia de novo genero, rosnavam uma boa duzia de gallegas, que vinham da terra a visitarem os respectivos gallegos residentes no Porto.