—Porquê?
—O governo suspeita que tu és um enviado do partido monachal de Hespanha, que combinas com o de França uma reacção. Ha ordem de prisão para ti.
—Não julguei que era uma pessoa tão importante. Tenho gloria de ser prêso como homem temivel a duas nações. Ainda agora me lembro que posso ser um grande homem. Quem sabe se me está reservada a corôa de Fernando VII!
—Não zombes, Vilhegas... Foge, quanto antes, de Paris. Aqui tens passaporte para Portugal.
—Não vou para Portugal. Alcança-me um passaporte para Hespanha, e perdôo-te as mil libras que hontem perdeste. Olha lá... Dou-te outras mil se dizes no passaporte, que eu sou um missionario hespanhol, que volto do Japão. Acceitas?
—Acceito... Vou buscar-t'o. Mas tu não tens cara de missionario.
—Eu respondo pela cara, e, se não, sabes quem venda uma? Os vossos ministros devem ter algumas disponiveis!... Vês como eu já vou pendendo para a linguagem dos estadistas?... Nunca me lembrou, que podia ser o grande homem, que vou ser!... Onde quer está um Napoleão incubado!... Avia-te...
Duas horas depois, Augusto Leite, com uma pequena trouxa, um habito franciscano, a face amarellecida por não sabemos que tinturas finissimas, caminhava a pé para um porto de mar, onde devia embarcar para Cadiz.
Vai-se tornando interessante o romance. Já era tempo!
O frade franciscano Benito das Cinco Chagas, dias depois, desembarcava em Cadiz, onde as côrtes se refugiaram com Fernando VII, que estava prêso, a pretexto de demencia, por não ter sanccionado a constituição.