—Póde ser portador d'uma encommenda para a viuva de Antonio José da Silva?
—Com muito boa vontade.
—Tenha a bondade de acompanhar-me.
Augusto Leite subiu ao hotel, onde residia, emquanto o procurador de D. Maria Elisa o esperava. Demorou-se alguns minutos, e entraram juntos em uma casa commercial ingleza. Sacou uma ordem de mil e quinhentas libras sobre o Porto, entregues á ordem de D. Maria Elisa, e entregou-a com uma carta ao procurador, accrescentando:
—Diga a essa senhora, que não desça da sua dignidade, nem abandone as pessoas que levantou da miseria. Eu terei cuidado de velar pela sua sorte.
O procurador, aturdido como é natural, desejou n'aquelle momento vencer como n'um vôo de espirito a distancia, que o separava de Maria Elisa. Aventurou algumas perguntas ao generoso hespanhol; mas não conseguiu elucidar-se mais do que tinha sido.
Augusto Leite entrou no seu quarto, e disse á sua imagem representada no espelho: «Meu amigo, quando te vi, ha oito mezes, rir de contentamento no espelho de Maria Elisa, tinhas um riso bem differente d'esse que te vejo agora. Acredito que o prazer de uma boa acção é o unico prazer sem mistura de dôr. É a primeira acção boa que praticas, meu caro Augusto! Se te habituasses a ser honrado assim muitas vezes, naturalmente cahias desamparado na rua. Esconde agora a face da honra, e faz uso da outra, porque uma só cara não presta para nada. Visto que tomas a teu cargo aquellas mulheres, precisas de ser pessoa de bem uma vez cada anno. A virtude, nos homens da tua fortuna, deve ser como os intervallos lucidos da loucura. Se vaes dizer á sociedade que te dê os meios para sustentares tua pobre mulher e tua filha, a sociedade manda-te trabalhar. Pois então, D. Affonso Vilhegas, trabalha antes que ella te mande. Dos trabalhos procura o mais rendoso. Como não tens grande força muscular, faz que o teu officio esteja mais dependente do espirito.»
Este dialogo, com o seu unico amigo, foi interrompido por uma personagem, que apeára d'uma sege e mandára adiante o seu nome: era o visconde de Bellarmin.
—Meu caro visconde, vieste encontrar-me a conversar comigo.
—É necessario que te retires de Paris immediatamente.