Entrou no carcere, armado d'um punhal. Foi direito á camara do rei. O primeiro que se lhe antepôz foi o supposto official francez. Recuou diante de duas pistolas; mas um instante. Refez-se da coragem da desesperação, e aggrediu o timido rei, que se refugiara atraz de Augusto. O bem provado athleta de Casal de Pedro desfechou-lhe uma pistola no peito: mas não pôde esquivar-se a uma punhalada no coração. Travaram por alguns minutos uma lucta feroz, e cahiram ambos estendidos.
O que recebera uma bala no peito podia viver ainda hoje, se, no dia immediato, não fosse arrancado á enfermaria militar para padecer morte de garrotilho, com alguns dos seus collegas. Mas, ao mesmo tempo, Augusto Leite, que sentira mais dentro a ponta do punhal, era enterrado com grandes honras por ter defendido, á custa da propria, a vida do seu rei.
O que ninguem sabia dizer ao certo era a naturalidade do corajoso defensor de Fernando VII. Os frades queriam-no para o catalogo dos martyres franciscanos; mas um francez do estado maior do duque de Angouleme dizia que aquelle homem vivera algum tempo em Paris, onde se intitulava D. Affonso Vilhegas. O que tal disse, tinha razão sobeja para sabel-o, porque era o visconde de Bellarmin, que vendera o passaporte de frade ao seu amigo por mil libras.
Ora pois, d'este sugeito estamos nós livres. Podemos dizer que morreu bem. Espero que este meu romance, só de per si, conduza á eternidade individuos sufficientes para chamarem a attenção devota dos pios leitores em dia de fieis, defuntos.
[CAPITULO XXIX]
Maria Elisa, com Rosa Guilhermina, e a filha viviam na casa do Sério, unica propriedade que poderam salvar da fatal quebra do negociante francez e do sequestro do judeu. O dinheiro, que lhes fôra enviado de Paris, melhorára a condição precaria das afflictas senhoras, que se viam na dura precisão de entrarem n'um convento como criadas de freiras.
Calcularam d'onde poderia vir-lhe aquelle dinheiro, e abençoaram Augusto Leite, que parecia entrar, ao cabo de tantos desatinos, na estrada da honra. Calaram o segredo, receando que perseguissem o assassino dos dous soldados em Casal de Pedro, e esperaram que o tempo o rehabilitasse para tornar a Portugal.
Passou um anno, sem novas de Augusto. Resolveram mandar a Paris o procurador que fallára com o generoso hespanhol. Foi. Procurou-o na mesma casa, e soube que esse homem se retirára de França um anno antes.
Disseram-lhe que existia em Paris um general, que conhecera muito D. Affonso Vilhegas. O procurador encontrou esse general que era o visconde de Bellarmin, e soube que o supposto hespanhol morrera em Cadiz.
Esta nova matou todas as esperanças das pobres senhoras. Pobres outra vez! Choraram muito, como é natural, e resolveram abraçar a baixa profissão de criadas de convento.