Mas eram bellas ainda. A desgraça, ao passar por ellas, nem lhes desbotára o viço da formosura, nem lhes arrefecera de todo o coração. Viuvas ambas, embora pobres, quantos anciariam por esposal-as, se ellas viessem ao mundo com o seu sorriso de seducção?

Rosa tinha visto, em cinco mezes successivos, todos os dias, á mesma hora, um cavalleiro que passava, com os olhos pregados na janella do seu quarto, onde ella, na hora das saudades, á luz crepuscular, costumava sentar-se com sua filha nos braços.

Em uma d'essas tardes, vira que o cavalleiro parava, e dissera para cima palavras que ella não entendeu, nem quiz entender. Restirára-se a contar á sua amiga a aventura estranha, e promettera nunca mais, a tal hora, dar azo aos atrevimentos do senhor Alvaro de Sousa, que assim se chamava o fidalgo enamorado.

No dia seguinte, é certo que não veio á janella; mas, por entre as cortinas mal cerradas, teve a fraqueza de espreital-o. O fidalgo, que não deu por isso, parou um momento, e disse ella á sua amiga que o vira suspirar. Se isto é verdade, o senhor Alvaro de Sousa, emquanto a mim, era poeta. Os poetas fazem monopolio dos suspiros, mas, honra lhes seja feita, não encarecem o genero; barateiam-no de modo que não ha consumidora que tenha razão de queixa.

E eu creio sinceramente que Rosa Guilhermina, se lhe não dava em troca um suspiro, nem por isso se affligia da violencia com que o illustre representante dos Sousas lhe remettia os seus anhelitos amorosos.

Hão de acreditar-me que o mancebo era um bello mancebo. Ainda hoje me fallam d'elle como a joia das formosuras masculinas do Porto. Era uma dama, segundo me dizem as senhoras de cincoenta annos. Tinha intelligencia, qualidade que o exceptuava da regra geral que regulava o entendimento opaco de seus nobres primos. Era filho segundo; mas rico, e generoso, e dado a prazeres que lhe não arruinavam a bolsa nem a saude. Vinha a ser, emfim, um perfeito homem o que se apaixonára sériamente pela esquiva viuva de Augusto Leite.

Alvaro de Sousa, contrariado pela apparente frieza de Rosa, sentiu-se vexado no seu amor proprio, e impoz-se orgulhosamente um fidalgo desprêso por tal mulher, indigna de honrar-se com o seu amor. Isto foi ao meio dia; mas, ás quatro horas, o soberbo moço anafava cuidadosamente os cabellos, para não ser suprendido, em desalinho, no Sério.

N'essa tarde encontrou Rosa Guilhermina passeando, na alameda da Lapa, com a amiga, e a filhinha que brincava com um cão de regaço. O cãosinho, que não estava para brinquedos, encolheu a cauda, e fugiu á ama, na direcção da casa. As senhoras chamavam-lhe Joli, que era, por esse tempo, o nome favorito de todos os cães; mas o rebelde quadrupede não olhava para traz.

Alvaro esporeou o cavallo, cortou a vanguarda do cão, apeou-se gentilmente, apanhou o bichinho, que se agachava com medo, tomou-o no collo, e foi conduzil-o ás damas, que receberam a attenciosa delicadeza com o rubor na face.

O leitor deve ter observado que estas damas perderam o antigo estylo. Já não fallam a guindada linguagem das novellas, nem curam de aprimorar as ideias, enfeitando-as d'aquelles arrebiques e galanterias que eu espero ainda encontrar na mulher, que Deus me destina, e que ha de fazer de mim um respeitavel marido.