N'outro tempo, Alvaro de Sousa seria recebido com quatro metáphoras, e vêr-se-ia na precisão de incommodar a mythologia para responder-lhes. Agora, já não. A idade, o soffrimento, a experiencia, e o temor do futuro abatera no raso da linguagem humana aquellas almas perdidas nas maravilhas aereas. Fallavam como nós, importavam-se pouco dos livros, sentiam-se muito decahidas no espirito, e concordavam conscienciosamente que tinham sido embrutecidas pela desgraça.
E se não vejam:
—Agradecemos muito a sua delicadeza—disse Maria Elisa, recebendo o cãosinho (não tenho a certeza se era cadelinha) das mãos de Alvaro.
—Só este irracional—disse Alvaro, mastigando a fineza—deixaria de obedecer ás ordens de suas amas. Assim mesmo peço que não seja castigado... Se elle tivesse entendimento, o remorso de ter sido desobediente seria bastante castigo.
—Muito agradecidas ás lisonjas de v. exc.ª—atalhou Maria Elisa, emquanto Rosa se fingia distrahida sacudindo a terra das saias da menina.
—Não é lisonja, minhas senhoras. O que eu digo é o menos que se póde dizer, e espero acreditem que não sei dizer tudo que sinto. Aquella senhora parece aborrecer-se da minha presença...
—Não, senhor—disse Rosa.—A presença de v. exc.ª não aborrece... É porque estava sacudindo a terra dos vestidos de minha filha...
—Que é linda como sua mãe... Que annos tem?
—Quasi cinco.
—Em tão tenra idade é admiravel a esperteza d'esta creança!... Venha cá, minha menina... como se chama?