III

12 d'outubro

Tive hontem o desgosto de não encontrar em casa v. exc.ª Procurei-a porque tinha muitas ideias a revelar-lhe, mas tão desordenadas, que receei não poder escrevel-as. A bondade, com que a minha paciente amiga costuma attender os desvarios d'este forte coração e d'esta debil cabeça, seria mais uma vez tolerante comigo.

Não a encontrando, resolvo escrever-lhe, e v. exc.ª verá n'esta carta o tumulto de sensações que se me atropellam na alma, ha dez dias.

Instado por Alvaro de Sousa, fui recomeçar o retrato da viuva. Era-me preciso, para não passar por doudo, remediar de qualquer maneira a precipitação com que sahi d'aquella casa. Não me occorreu algum pretexto. Adoptei o silencio como explicação, e não dei uma palavra que suscitasse recordações do dia anterior.

Reparei com animo frio na physionomia de Rosa. É uma d'estas mulheres que o mundo chama bellas, e eu creio que o são. Sem uns traços de soffrimento, que lhe assombram os olhos, não seria tão bella. Tem um olhar humilde, como quem pede compaixão. Não sei que transparente brilho de lagrimas lhe empana os olhos. As palpebras, como cansadas de se abrirem diante do infortunio, pendem amortecidas. Se não ha estudo n'esta attitude caracteristica, o olhar de Rosa póde exprimir muito amor, ou muito fastio.

Muito amor, talvez... é mais natural. Alvaro de Sousa, constantemente embebido na contemplação d'esta mulher, não a deixa um instante sósinha. Muitas vezes a viuva do negociante vem á sala trocar algumas palavras com Alvaro, e não consegue divertir-lhe os olhos da sua amiga. Não pude comprehendel-os. Achei demasiada precaução no amante, e alguma frieza, se não era pudor, em Rosa. As perguntas carinhosas, que elle lhe faz, são correspondidas com meiguice nos labios; mas a phrase vem sêcca do coração. Reparei n'isto, e parece que o pincel, que traçava as feições de Rosa, copiava tambem a physionomia moral de ambos.

Á primeira secção vieram ao panno os traços formosos da viuva. Alvaro abraçou-me com frenesi; e ella parece que encarou tristemente aquelle jubilo, que me pareceu pueril. É que aos vinte annos é assim o amor. A felicidade embriaga os que não provam o fel nas primeiras libações da infancia.

No dia seguinte fui continuar o retrato.

Alvaro de Sousa não tinha chegado ainda. Rosa pareceu-me mais alegre, e recebeu-me com um sorriso de graça e confiança. Antes de sentar-se perguntou-me que razão tivera eu para retirar-me, na primeira vez que alli fôra, d'um modo que a deixára cuidadosa. Pedi-lhe que me não interrogasse. Rosa, sem offensa ao meu pedido, fallou de Helena, recordando a conversa que precedera a minha sahida. Era uma delicada maneira de interrogar-me. Eu creio que me desfigurei. Reparou ella que eu estava pallido e tremulo. Assucena, que por não sei que infantil capricho me subira para o collo, disse que eu tinha uma lagrima nos olhos. Rosa aproximou-se, e, apertando-me a mão, com um ar de bondade, e um desembaraço de que eu não seria capaz, disse que me conhecia, e pediu-me perdão de ter ferido o filho do advogado, que adorára a filha do general.