Emquanto esboçava os contornos, perguntei-lhe se conhecera Helena Christina, nas orphãs. Disse-me que sim, e que chorára, quando teve a noticia da sua morte, por causa d'uma paixão que cegamente tributára a um homem, que não era da sua condição.
Que homem era esse?—perguntei-lhe eu—Era o filho d'um advogado.—Pensei que a condição do advogado era nobre, repliquei eu.—É nobre; mas a d'um general é muito mais nobre, e Helena era filha d'um general.
Não pude continuar o retrato. A palheta tremia-me no braço, e o pincel traçava linhas confusas. Pedi licença para retirar-me, e deixei Alvaro enleado da minha improvisada sahida.
Passei uma noite cruelissima. Levantei-me para escrever a v. exc.ª Cuidei que esta carta me seria um desabafo; mas a suffocação augmenta. Para que me disse aquella mulher que eu fui a causa da morte de Helena? Penso que o fui. Accuso-me d'esse crime; porque não posso accusar meu pae, que devera ser general, e não advogado.
Como é a sociedade, senhora! É impossivel que a Providencia não abandonasse o homem, depois de o ter creado! Se o espirito de Deus presidisse á organisação do genero humano, ninguem viria dizer-me: «A tua condição social collocou um tumulo entre ti e a filha de um general!»
E é a isto que eu chamei a minha felicidade! É um novo crime! Aquella mulher confirmou a certeza que eu tinha de ter sido amado por Helena até lhe merecer o sacrificio da vida. Será isto um egoismo barbaro?
Adeus, minha boa amiga.
De v. exc.ª
Amigo do coração,
Paulo.