30 de setembro

Palpita-me com sobresalto o coração. Preciso escrever-lhe emquanto me dura esta febre, que está sendo a minha felicidade! Felicidade! com que ousadia pueril escrevi semelhante palavra! Já é desejar muito possuil-a! Bem se vê que sou um homem sem presentimento nenhum alegre, sem nenhum direito á felicidade. Um pequeno lance na minha vida transtorna-me a cabeça; e, comtudo, estes lances, creio eu que são frequentes, e desapercebidos, na vida de qualquer outro, mediocremente feliz.

Hontem fui procurado por Alvaro de Sousa, que uma vez encontrei em casa de v. exc.ª Impressionou-me um ente estranho, no meu quarto, fechado para todo o mundo. Chamou-me «amigo» e esta palavra banal fez-me sorrir, pronunciada por um homem, que eu apenas conhecia, e que tão distante está da minha obscura classe!...

Disse-me que possuia um quadro meu, era que uma virgem, mais formosa que as de Raphael, era pintada no extasis de responder a sua mãe que a chamava do céo. Eu já sabia que v. exc.ª lhe tinha dado este quadro. Entendi, quando o soube, que não devia magoar-me; mas quizera, antes, que os profanos na religião do martyrio ignorassem o author daquella pintura. Não me receba isto como queixume. É a innocente sensibilidade de quem, pelo muito soffrimento, chegou talvez aos escrupulos injustos...

Perguntou-me se eu continuava a pintar. Respondi-lhe a verdade, que nunca veio desfigurada do meu coração. Disse-lhe que sim. Pediu-me, como especial favor, que retratasse uma mulher. Hesitei um momento; mas tive pejo de me negar. Annui, e na tarde de hontem, acompanhei-o ao Sério, a casa da viuva d'um negociante que, penso eu, se chamou Antonio José da Silva, e creio mesmo que v. exc.ª me fallou, ha tempos, n'esse homem, contando-me as aventuras d'uma tal Anna do Carmo, casada com seu primo de traz da Sé.

Em casa d'essa viuva está uma senhora, viuva tambem. Ha tres annos que a vi casada com um tal Augusto Leite, que deixou uma triste celebridade. A nossa chorada amiga fôra companheira d'ella nas orphãs em S. Lazaro, e contou-me cousas que lhe não eram muito favoraveis á sua indole de menina.

Quando a vi casada com um homem perdido, imaginei que a semelhança dos genios aproximára dous entes, que deviam encontrar-se. Comtudo, a Rosinha, como lhe chamava Helena, pareceu-me triste. Soube depois que era realmente infeliz, e nunca mais tornei a vêl-a.

Vi-a hontem, sentada diante de mim, com o sereno aspecto do prazer no rosto, um pouco macerado, mas radiante ainda d'aquelle brilho de certas bellezas que não se apaga nunca. Quiz adivinhar-lhe o coração nos olhos, e estes olhos, languidos de ternura, vi que se fechavam n'um espasmo delicioso a cada olhar de Alvaro de Sousa. Entristeci-me daquillo, porque me lembraram as mulheres do grande mundo, os typos de magestosa immoralidade, que dificultosamente se aclimatam em Portugal, onde não chegou ainda a cultura e o despejo da França

Eu disse-lhe que não podia prescindir dos seus olhos por algumas horas. Sentia-me com disposição para zombar da belleza, que tinha a vaidade de reproduzir-se para, dez annos depois, encontrar, no logar das rosas, as rugas da velhice, no vívido scintillar dos olhos o amortecimento do cansaço.

Principiei o retrato. Alvaro de Sousa entretinha nos braços uma pequena creança a quem chamavam Assucena. É filha de Rosa. Conheci-a pela semelhança com sua mãe; mas não sei o que ha na physionomia da pequena, que prophetisa fatalidades! Serei eu supersticioso?