Votei-me ao amor da arte, porque eu tinha precisão de viver para alguma cousa; mas a arte não me galardôa a minha dedicação. Do seio da tela tenho arrancado imagens, que são a reminiscencia d'aquella mulher que me fugiu dos braços para os braços do tumulo.
Aqui tem, minha amiga, como a arte recompensa os meus desvelos! Pede-me lagrimas, e não m'as paga com a esperança de crear por ella um nome, como o de muitos desgraçados que se immortalisaram nos quadros, em que verteram muitas.
Eu não sou egoista dos meus padecimentos. Tenho querido encontrar a felicidade que a minha extremosa amiga me vaticina. Tenho procurado essa segunda mulher com o reflexo luminoso da primeira, que me deixou rodeado de trevas, e saudades. Alguma vez, abandono o meu quarto, e corro, anhelante de não sei que esperança embriagadora, atraz d'essa visão impossivel. Sabe o que eu encontro sempre? A fachada do templo de S. Francisco. Lá dentro dorme o somno eterno a nossa amiga, sempre chorada! Se posso entrar, ajoelho, chamo-a a testemunhar as minhas ancias, e retiro-me d'alli gelado pela dúvida, gelado como a pedra que a separa dos vivos, gelado como o cadaver, que se move impellido por não sei que mão fatal que me não deixa resvalar no meu abysmo!
Sou bem desgraçado, não é assim? Muito! Este meu viver é alguma cousa mais dilacerante que a dôr. Não tenho a esperança consoladora, que a Providencia manda sentar-se no limiar de todos os infelizes. Vejo d'aqui todos os pontos em que devo passar na minha longa viagem para o nada. O presente conta-me o futuro. O que vem não receio que seja peor que o que é. Ha uma cruel monotonia n'esta angustia de todas as horas!
V. exc.ª comprehende-me? Creio que sim! O infortunio illumina o entendimento. Para o que soffreu não ha mysterios de dôr no coração do estranho. A minha amiga tem soffrido muito. Perdeu, ha pouco, um esposo querido. Já depois beijou os labios frios d'uma unica filha que ficára fallando com a innocencia da saudade a linguagem singela e carinhosa de seu pae. Ainda assim, invejo-lhe o poder que tem de prestar consolações á amargura dos outros. Eu, hoje, não saberia consolar ninguem.
Minha amiga, dê-me a sua estima, que eu não tenho mais nada. Em remuneração, dou-lhe a verdade da minha alma, que é um thesouro, raras vezes, concedido.
De v. exc.ª
Verdadeiro amigo,
Paulo.
II