—Viuva a reputava eu, ha muito!—atalhou Alvaro.
—Não o era... Convinha que esse boato corresse...
O fidalgo deu a entender que sabia a razão d'esse boato, e retirou-se sem Assucena, que não podia, durante o lucto, sahir de ao pé de sua mãe. Á tarde, Alvaro veio fazer a D. Rosa a visita de pezames, e offerecer o seu prestimo.
Na tarde do dia seguinte repetiu a visita, e passou a noite.
Nos dias immediatos entrava com familiaridade. O ferreiro que morava defronte disse ao sapateiro visinho que o tal fidalgo não se lhe dava de recolher as duas frangas perdidas do rebanho. Este ferreiro tinha algum espirito. Se vivesse hoje, de certo não era ferreiro; escreveria folhetins, ao passo que o seu visinho sapateiro, homem lido no Bandarra e Carlos-Magno, amanharia substanciosos artigos de fundo. O fidalgo, esse, se vivesse hoje, faria o mesmo que fez então, e que ha de fazer-se no seculo XX. Eu, por mim, se fosse contemporaneo do mestre ferreiro, não escrevia romances. A estas horas (são sete e meia da tarde) estava eu rezando vesperas em algum côro de frades carmelitas, para que tenho uma vocação imperiosa.
Agora, leitores, o meu trabalho termina aqui. As cartas, que ides lêr, confiou-m'as a pessoa, que me contou esta historia. São textuaes. Podem vêr-se em minha casa, desde o meio dia até ás quatro horas da tarde. Quem as escreve é um pintor, que teve nome no Porto, e pouco tempo furtou á desgraça para cultivar a arte. Quem as recebe é uma senhora, que ainda vive.
CARTA I
22 de setembro de 1824
Minha estimavel amiga:
Não posso ser indiferente ao interesse, que v. exc.ª tem na minha felicidade. Na soledade em que me vejo, as suas cartas são a unica indemnisação que tenho das compridas horas de uma vida sósinha, escura, e despovoada de todas as bellezas, se é que algumas a existencia póde ter para mim.