—Deus me livre de sacrifical-o... Pensei que lhe não seria penoso conversar com uma companheira de Helena, alguns instantes no dia.
—É muito penoso...
—Muito?... é admiravel!... E porquê?... Mereço-lhe a confiança de me dizer que motivos lhe dou para não ser digna testemunha de suas lagrimas?
—Nenhuns motivos, senhora D. Rosa... É que eu não tenho a tranquillidade de espirito precisa para receber como um prazer as recordações d'essa mulher que amei como não posso tornar a amar... Já vê que deve ser-me bastante amarga a convivencia com uma pessoa, que promette fallar-me de Helena...
—Não lhe fallarei n'ella...
—Então seria eu quem fallaria, senhora D. Rosa... Tenho-a sempre adiante dos olhos... Não posso mandal-a afastar da minha alma, para entreter-me em cousas futeis...
—Nem tudo é futil, senhor Paulo...
—Para mim... é. Não tenho vida que não seja uma insoffrivel saudade; mas acho esta dôr mais nobre que tudo que me rodeia... Por ella, troco de boamente todas as felicidades que o mundo possa traiçoeiramente offertar-me...
—Traiçoeiramente...
—Sim... Creio que o mundo não póde offerecel-as d'outro modo... Tomára eu ser esquecido para todos, assim como o meu nome o foi para v. exc.ª... Preciso que me deixem, porque eu não procuro alguem. Será forçarem-me a soffrimentos com que não posso, e contra os quaes empregarei toda a minha coragem, chamarem-me para um mundo, onde serei como o homem sem patria, nem affeições, nem amigos.