—E que importaria morrer?
—Importava não sentir...
—Pois o senhor não crê n'outra vida?
—Não creio n'outra vida. Procurei acredital-a. Li tudo, estudei tudo, porque me disseram que a incredulidade era a estupidez. A cada oraculo da immortalidade, que consultava, a minha alma, além de incredula, sentia a cruel precisão de escarnecer a fé dos que nos mandaram crêr. Disseram-me que eu não cria, porque a fé era uma graça especial do Senhor. Isto fez-me rir amargamente; mas, supersticioso pela desgraça, pedi, invoquei, suppliquei com fervor a fé. Esperei-a. Deixe-me rir, senhora, que este riso é um insulto bem merecido às minhas crenças... O homem é um verme. Deus não tem nada com este grão de areia, que lançou no oceano, a turbilhões, com a ponta d'um pé...
—Deve ser muito desgraçado...
—Não sou mais do que seria: creio, pelo contrario, que sou menos. A immortalidade de que me servia?
—De encontrar essa mulher, que tanto amou n'este mundo...
—Isso é falso... Essa mulher, que muito amei n'este mundo, antes de entrar no esquife, principiou a desorganisar-se. As pessoas, que estavam em redor, diziam que era insupportavel o cheiro do cadaver... A putrefacção, a estas horas, deve tel-a consummido... De que me servia a immortalidade a mim, se os vermes me não restituissem a mulher que teve um dobre a finados, uma oração mercenaria, uma lagrima do costume, e a eternidade do nada, que é a verdadeira eternidade?...
—Com uma razão tão forte é impossivel que não possa vencer os seus soffrimentos.
—Chama v. exc.ª a isto razão forte? É uma debilidade, minha senhora... Forte é a razão do homem que se dá voluntariamente a esperanças chimericas, e crenças sem critica... O forte é esse, que vence a propria razão... Fraco sou eu, que não posso subjugar o espirito...