«A sua preciso d'ella; porque preciso da sua estima, como d'um amparo que me anime a esperar sobre a terra a felicidade, que, em poucos dias, vi fugir diante de meus olhos, como um sonho ditoso.
«A sympathia entre dous desgraçados deve ser abençoada por Deus. Não fuja d'uma mulher que póde, se não dar-lhe consolações, recebel-as ao menos. Seja meu amigo, não como foi de Helena, mas como póde sêl-o d'uma pessoa, que desejára n'este instante ter uma sepultura ao lado d'ella.
«Não ouso pedir-lhe nada, não tenho sequer coragem de implorar-lhe duas linhas em resposta a esta carta, que me sahiu tão ingenua do coração, que nem quero tornar a vêl-a, para que o artificio da fria cabeça não vá manchar a pureza natural com que a escrevi.
«Adeus, Paulo. Não desdenhe a inutil estima, que lhe offerece
Rosa Guilhermina.»
Esta carta não me impressionou. Quasi que me não occupei senão do estylo em que era escripta! Encontrou-me n'um momento de gélida atonia. Tenho-os assim, e então a minha alma é dura, o meu coração paralysa, os meus labios sorriem-se machinalmente, e eu escondo a face nas mãos para contemplar este mysterioso mixto de sensibilidade e cynismo que caracterisa as feições da minha indole.
O portador d'esta carta esperava uma resposta, duas horas depois. Eu não pensei que devia responder; por isso não tive o cuidado de saber se alguem esperava resposta. Quando me annunciaram o portador, mandei-o subir. Perguntei-lhe se era forçoso responder; disse-me que tinha ordem de esperar até que eu lhe désse resposta, ou dissesse que a não tinha.
Escrevi...
Não me lembra bem o quê. Penso que eram estas as ideias:
Que eu não mostrára o menor interesse em conhecer indiscretamente a natureza das ligações que prendiam D. Rosa Guilhermina a Alvaro de Sousa;