20 de outubro

A carta de v. exc.ª, cheia de benevolos conselhos, e prudentes reflexões a respeito do meu conflicto com o senhor Alvaro de Sousa, é uma nova força que v. exc.ª quer dar ás minhas convicções na sua amizade.

Felizmente, o primo de v. exc.ª, sentindo por ventura que lhe não era glorioso um desforço com o pintor, já teve a summa discrição e bondade de encontrar-se comigo tres vezes, e deixar-me seguir pacificamente o meu caminho.

Sinceramente lhe digo, minha nobre amiga, que o menos interessado, n'esta ridicula lucta com um moço digno d'outro competidor, era de certo eu.

Não me levava para este acto de suprema vaidade o coração. O meu mal pensado cavalheirismo era todo da cabeça, que tenho cheia de loucuras, e refractaria a tudo que é submissão a classes, cuja superioridade—desculpe-me v. exc.ª—não reconheço debaixo do céo.

D'este orgulho, que eu supponho não existirá d'hoje a cem annos, porque então os homens serão todos iguaes perante a lei, e irmãos perante Deus, d'este orgulho resultou a facilidade com que fui hontem procurar D. Rosa, que me pedia anciosamente uma entrevista.

Encontrei-a assustada, confiando de mais na superioridade de Alvaro, e avaliando em menos que o seu valor real a minha frieza de animo para arrostar as furias do seu fidalgo amante.

Sorri piedosamente para aquelles receios, aliás naturaes no coração d'uma mulher.

Aquietei-lhe quanto pude o seu sobresalto, e acabei por pedir-lhe que fosse grata aos extremos do gentil moço, que, por ella, se arriscava a um encontro, cujas consequencias eram imprevistas para ambos nós. N'este sentido, aconselhei-a com uma generosidade digna d'outros tempos. Encareci o merecimento do senhor Alvaro, advoguei a causa d'elle com o fervor d'amigo, estabeleci comparações entre nós que redundavam em grandes vantagens para elle, e terminei este difficil papel, salvando a minha posição falsa, com lhe offerecer a sincera estima de irmão.

Rosa Guilhermina não me quer para irmão. Achei-a de marmore para este sentimento que seria em mim o mais vital de todos, o que eu hoje mais lhe agradeceria, e o primeiro e derradeiro que eu posso offerecer a uma mulher. Ella, não. Fallou-me do seu amor com estranho desembaraço. Explicou-me os effeitos d'uma impressão violenta. Disse-me que só um prompto desprêso poderia salval-a, porque tinha o amor proprio necessario para não succumbir sem gloria, humilhando-se a um homem que a não comprehendia. Empregou, na exposição eloquente da sua sympathia, as melhores palavras da novella, e concluiu o seu não interrompido discurso com lagrimas, que me pareceram mais eloquentes que a fecundidade palavrosa.